15 fevereiro, 2011

Só sei que muito sei

Após um longo interregno, durante o qual a Ana Garcia Martins, mais conhecida na blogoesfera como a Pipoca mais Doce, se lembrou de desperdiçar abusivamente os seus dotes, tempo e talento, a falar de sapatos, malas, vestidos, pulseirinhas, bugiganga, Benfica e outras coisas fúteis - talvez com intenção de captar mais facilmente os links direccionados pela Google -, eis que em pleno dia de S. Valentim, a rapariga volta a surpreender meio mundo com um texto lindíssimo publicado no jornal Metro à convite da escritora Margarida Rebelo Pinto.(A tal que não percebe nada sobre o amor e já por isso é forçada a convidar os outros para falar do assunto..). :)
E por ser lindíssimo, vale a pena partilhá-lo convosco...

«..Tenho 30 anos e não sei nada sobre o amor. Gostava de poder dizer “quem me dera ter 20 anos e saber o que sei hoje”, mas seria pretensão. Porque não sei nada. Durante muito tempo achei que amor era viver com o coração nas mãos, no pescoço, no estômago, pronto a explodir e a projectar-se em mil pedaços. Gostar, gostar a sério, aquele gostar de paixão, só podia ser isso. Viver em ânsia o tempo todo, correr atrás, pedir, implorar, pedir de novo, pôr-me em bicos de pés e anunciar a minha presença. Fazer uma gestão de danos a todo o momento, tentar não incomodar, não estar a mais, dar, dar, dar e receber quase nada em troca. Achar que esse pouco era mais do que suficiente, que mais vale pouco do que nada. E foi isso. Achei sempre que pouco era melhor do que nada. A triste realidade é essa. Já não me lembro de quantas vezes me senti remediada, assim-assim, vai-se andando. De quantas vezes parti a alma e de quantas a voltei a colar. De quantas vezes me apaixonei e de quantas jurei para nunca mais. Que as coisas do amor não eram para mim e mais valia estar quieta. Uma treta. Nunca conseguir estar quieta. E via os acidentes emocionais a darem-se e não podia fazer nada para os evitar. Nem sequer fechava os olhos para não ver. Meti-me em muitas relações sem cinto de segurança, e depois achava estranho fazer mais uma fractura no espírito. As cicatrizes que para aqui vão. A verdade é que sempre fui uma crente, uma utópica, uma arrebatada. Uma totó, a palavra não é outra. Se calhar ainda sou, mas de aliança no anelar esquerdo. Afinal, amor podia ser outra coisa que não uma sofreguidão desatada, uma correria sem meta à vista. Afinal, comecei a perceber, amor era 50/50. E dias mais calmos. E tardes no sofá. E filmes, e séries, e amigos à mesa. E conversas, e planos, e os nomes dos filhos que se quer ter. E uma conta corrente, este mês pago eu a empregada e tu a conta da luz. E dizer que um cão num apartamento nem pensar. E voltar atrás e dizer que sim, haja espaço e boa vontade. E pegar num mapa e ver quanto mundo nos falta ver. E decidir quem desce a pé os três andares para deixar o lixo, quem se arrasta para tratar da louça, quem encaminha a roupa para os armários, quem atira com a carne para o forno (ontem fui eu, hoje és tu). Gosto deste amor. Gosto muito deste amor que me dá beijos quando chego a casa, que não vive imerso em dúvidas existenciais e pós-modernas, que há já algum tempo que sabe o que quer. E que me quer a mim. Disse-o no altar, à frente de todos. Estava lá e ouvi. Retiro o que disse. Tenho 30 anos e sei quanto baste sobre o amor. Quem me dera ter 20 e saber o que sei hoje...»

Texto da Ana Garcia Martins publicado no jornal Metro.

4 comentários:

  1. Sem dúvida que é por este tipo de textos que eu gosto dela. As superficialidades dispenso. Gosto é destes textos.

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  2. O amor, que não paixão, é sempre algo muito sereno...

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  3. S*, concordo inteiramente contigo.
    Estive quase para deixar de seguir o blog dela, uma vez que as "superficialidades" já estavam a ser mais que exageradas, mas estes últimos textos que ela publicou fizeram-me recuar na minha intenção.
    Vou lhe dar mais um voto de confiança. :)

    Nina, Sim ...Muito sereno...Como sempre te ouvi dizer e parece que essa ideia está a ser partilhada cada vez por mais gente.
    Acho que estamos todos a ficar mais pragmáticos até no campo dos afectos. :) Bjs

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  4. Não está má a reflexão... dizer as coisas que toda a gente faz e ninguém diz...e a vida resume-se a pequenos nadas.

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A frase mais estúpida que poderá ser dita aqui é: "Para Pensador pensas pouco..."
A mais inteligente é: "És tão lindo Pensador..."

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