23 outubro, 2013

Coisas de ontem...

Começou por ser apenas mais uma dor de cabeça. Só que esta dor tinha algo de diferente em relação a todas as outras que a precederam. Esta não queria passar de maneira nenhuma e com o passar dos dias foi-se tornando cada vez mais terrível. De repente as Aspergic's, Aspirina's, Brufen's, Ben Huron's e outras quantas tretas tantas, passaram a ser as minhas companheiras diárias. Em vão, infelizmente, pois nenhuma delas resultava para o problema que tinha. Era um aguentar e não chorar. Pelas suas características, acreditava tratar-se apenas de um problema de enxaqueca, muito comum nas sociedades de hoje, mas depois começaram a surgir sintomas muito piores que fizeram-me sentir cada dia mais inquietado. Comecei a sentir crises e "flashes" na cabeça, palpitações, batimentos cardíacos acelerados, tonturas, náuseas, vertigens, pernas trémulas, dores no peito, sensação de desmaio, fraqueza e todo o tipo de ataques de pânico. Nessa altura trabalhava numa empresa de processamento de Leite e sentia-me meio que perdido por ter que lidar com toda esta situação. Lembro ainda com certa tristeza todas as vezes que fui obrigado a parar o meu carro em pleno centro da cidade, na rua, muitas vezes na berma da autoestrada, a qualquer hora do dia, para enfrentar as crises de que era alvo e que, inclusive, faziam-me acreditar de que era chegada a minha hora e que estava na iminência de morrer. Durante os meus "ataques", sentia a minha garganta a apertar e a minha respiração a ficar extremamente ofegante, quase até sentir que não conseguia ingerir qualquer dose de oxigénio, mas depois lá conseguia acalmar-me e respirar um bocadinho e ao fim de trinta minutos ou uma hora, voltava a sentir-me capaz de conduzir...por mais alguns minutos. Mas como poderia eu trabalhar naquele estado? Nas primeiras vezes em que cheguei atrasado, ainda podia alegar que tive problemas com o trânsito ou inventar situações como o furo de um pneu, por exemplo, mas depois tornou-se demasiado embaraçoso ter que estar constantemente a inventar desculpas para justificar o nosso atraso ao trabalho. Compreendo-os perfeitamente, se estivesse no lugar deles também ia achar que eu andava a fazer deles lorpas.
Lembro-me ainda que, nesse tempo, participei numa verdadeira maratona de consultas médicas e exames, que, para desespero meu, nunca acusaram problemas de qualquer tipo. Para os meus amigos médicos, eu era um homem extremamente saudável, mas talvez com um parafuso a menos pelos vistos. Vá-lá, ao menos mantiveram-se sempre profissionais e foram suficientemente corteses para nunca me dizer isso de frente. Acho que teria sido o golpe fatal para destruir de vez a baixa auto-estima que alimentava nessa altura. Fiz exames ao sangue, ao coração, à cabeça, aos olhos, ao nariz, enfim...só não fiz exames ao rabo porque nessa altura ainda não me sentia mentalmente preparado para isso e, diga-se em boa verdade, também nunca pensava enfrentar nenhum problema nessa zona anatómica de sensibilidade critica. Pensava, disse eu bem, mas o destino tem um sentido de humor delirante como o caraças.
É verdade, para o mal dos meus pecados, durante uma passagem de ano que não ouso dizer qual foi porque já é suficientemente traumático lembrar-me disso, tive o infeliz dissabor de ter que me dirigir ao Hospital mais próximo por causa de um problema de obstipação intestinal e impactação fecal. Para os leigos, trata-se de um problema extremamente embaraçoso que resulta da necessidade assustadoramente impiedosa de querer defecar e não poder porque o "torpedo" ficou encalhado algures nas tripas. Alguns poderão achar tratar-se de cosa pouca, mas, a esses, deixem-me dizer-lhes que para mim foi a maior vergonha que tive de passar em toda a minha vida. E foi vergonhoso na medida em que a situação tornou-se tão complicada que chegou ao ponto de ser necessário introduzir-me um tubo no ânus, vulgo bujão, e injectar água morna com uns aditivos quaisquer para ajudar a retirar a alheira encalhada que teimava em não sair. O que se seguiu depois foi um momento deveras inusitado. Por crueldade do destino, enquanto ouvia foguetes a estoirar intensivamente lá fora e as pessoas à minha volta festejavam efusivamente a chegada do novo ano, eu estava literalmente a levar no cu.

A ser verdade o que dizem, de que os primeiros momentos de um ano novo eram indicativos do que iria suceder-nos ao longo do mesmo, acho que naquele momento o destino, Deus, Alá, Zeus ou qualquer que tivesse sido a providência divina, não poderiam ter sido mais claros comigo...
A sério minha gente, pergunto-me se havia mesmo necessidade de chegar a tanto.



Enfim, adiante. Confesso que naquela hora cheguei a temer que nem a "injecção anal" me fosse valer, mas, quando ao fim de alguns segundos senti o Layout do meu rabo totalmente esgotado e uma estranha ardência a crescer-me nas entranhas, foi extremamente cómico, pelo menos para todos aqueles que tiveram a felicidade de assistir à cena, ver-me a correr que nem um pinguim pelo corredor do hospital, segurando as minhas calças com uma mão à frente e outra atrás porque nem sequer tive tempo de aperta-las, seguindo com acérrima aflição em direcção à casa de banho mais próxima que uma enfermeira (muito sorridente por sinal...) teve a gentileza de sinalizar-me com o braço. Depois obviamente foi um alívio. Oh céus, mas que alivio! Acho que consegui subir ao nirvana e conhecer o Olimpo nessa noite. Só não deve ter sido um alívio para a infeliz que teve a missão de limpar a casa de banho depois disso, mas isso já são outros quinhentos que não ouso revelar. Voltemos mas é às coisas sérias.

Durante algum tempo a minha vida foi assim. Um verdadeiro desperdício. Primeiro fui forçado a despedir-me da empresa de Lacticínios onde trabalhava e fiquei parado cerca de 6 meses em casa, sem qualquer rendimento, a viver às custas do amor e compreensão da minha querida esposa. Escusado será dizer que a minha situação financeira sofreu um duro abalo e que a consciencialização desse facto não ajudava em nada a minha desejada recuperação. Sentia-me constantemente pressionado a ficar melhor para cumprir as minhas obrigações de homem, pai e marido, e pagar as contas que nunca paravam de entrar em casa. Mas mais eu pensava nisso e pior ficava. Mesmo que resistisse à ideia, mais do que a minha saúde física, era necessário tratar primeiro da minha saúde mental. Assim, passei a conhecer aquela que se tornou a fase mais introspectiva e perigosa que tive o desprazer de viver até hoje. Digo desprazer porque foi à custa dessa fase que quase ia dando cabo daquilo que tinha de mais valioso, mais importante e mais caro na minha vida. A minha família.


Mas isso irá ser o tema do próximo "Post" porque, para já, acho que vou ficar-me por aqui.

4 comentários:

  1. Oh Francisco... ahahah! Lamento, mas ri-me tanto. Só o senhor para contar com humor uma situação tão embaraçosa.

    Aqui em casa, quando alguém demora muito no wc, perguntamos "precisas de um gancho?". Pelos vistos, precisamos de perguntar se faz falta um tubo...

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  2. Menina S*, peço-te, deixa o senhor de lado por favor pois faz-me sentir velho. Hoje, apesar de não estar ainda totalmente curado,também posso rir-me disso mas na altura acredita que se houvesse um buraquinho onde pudesse esconder-me, atirava-me de cabeça tal o meu embaraço. Se decidi partilhar isto no meu Blog é porque tenho a opinião de que um dos melhores caminhos para sermos felizes no mundo é sabermos rir-nos das nossas próprias desventuras. Ainda bem que gostastes. :)

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  3. Após quase três anos?!...

    Para não teres perdido o teu sentido de humor é sinal que nem tudo está mal.

    Bj

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  4. De facto Nina, estaria tudo mal apenas se ao fim de 3 anos os grandes amigos fossem transformados subitamente em anónimos... :)

    Bjs

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A frase mais estúpida que poderá ser dita aqui é: "Para Pensador pensas pouco..."
A mais inteligente é: "És tão lindo Pensador..."

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