É verdade, estava tão aflito e tão desejoso que o problema se resolvesse, que me tinha esquecido do procedimento mais elementar. Talvez tenha sido fruto de alguma desconfiança nas capacidades dos profissionais de saúde que trabalham para o estado (os melhores preferem sempre o sector privado por ser melhor pago), mas tinha dado tanta importância ao meu problema e estava tão convencido de que se tratava de algo grave que não pensei duas vezes e corri logo para as mãos dos especialistas. Hoje apercebo-me que foi um erro estupidamente desnecessário. Se a minha primeira ideia tivesse sido recorrer ao meu médico de família, teria poupado uma fortuna. Mas também a culpa não tinha sido inteiramente minha, ela também foi fruto das circunstâncias. Devido a algumas reformas antecipadas e certas mudanças no sector da saúde, a verdade que eu nem sequer sabia quem era o meu novo médico de família. Mas fosse como fosse, era certo que estava na altura de o conhecer. Foi o que eu fiz. Depois de marcar uma consulta de rotina e esperar pacientemente por ela, eis que finalmente tive a oportunidade de falar com ela. Sim, era uma Doutora e tive a sorte de ela também ser especialista em Neurologia. Apresentei-me, falei-lhe um pouco sobre a minha vida actual e relatei-lhe toda a história médica que me tinha trazido até junto dela. Ela ouviu-me pacientemente, sem nunca interromper-me, e tomou apenas a palavra quando já tinha colocado os pratos todos limpos na mesa. Começou por perguntar-me se tinha sofrido algum tipo de episódio traumático durante a minha infância e/ou adolescência ou se tinha havido durante o meu percurso de vida alguma fase em que tenha sentido uma descarga muito anormal de ansiedade provocado por determinado problema que desejava ver resolvido. Confesso que a minha impressão inicial foi de um certo desanimo porque aquilo que menos precisava naquela hora era de alguém armado em psicanalista comigo. Calhou-me a neta do Freud pensei eu. Mas depois reflecti melhor e uma lembrança surgiu inesperadamente no meu horizonte. Algo que inicialmente pareceu-me uma parvoíce mas que afinal veio a revelar-se uma parte importante daquilo que foi a causa de tudo. Contei à minha médica que alguns anos antes (2 ou 3 sensivelmente) tinha deixado de fumar de um dia para o outro. Ela perguntou-me se eu fumava muito ao que eu respondi que sim, cerca de 2,5 a 3 maços por dia da marca SG GIGANTE. A doutora repreendeu-me imediatamente. Que foi você fazer, disse-me ela, deixar um vicio dessa ordem e dessa forma é de uma brutalidade imensurável para o seu corpo. Parece que tinha de fazer o desmame gradualmente e nunca fazer a asneira que tinha decidido fazer. O que fiz ao meu corpo foi o equivalente a um estado de alerta "DEFCON1" para os Estados Unidos, isto é, coloquei-o num estado de alerta constante pronto a ser atacado a qualquer momento por uma ameaça terrível. É como se estivéssemos a defender a nossa casa, com medo de sermos atacados e nunca conseguíssemos dormir. De nada me serviu tentar justificar-me perante ela, argumentando que era um homem determinado, que corta sempre o mal pela raiz em vez de andar por ai aos solavancos, etc..etc.. Ela tinha toda a razão, a minha coragem conduziu-me a uma situação manifestamente prejudicial. De facto, quando tinha deixado de fumar, lembro-me de ter passado um annus horribilis de muita ansiedade, nervosismo e stress, com o objectivo muito determinado de conseguir vencer esse vício. O que nunca pensei na altura, é que o meu corpo pudesse manifestar toda essa descarga excessiva de ansiedade cerca de 2 a 3 anos depois. O corpo humano é uma coisa espantosa, quem conseguirá algum dia compreendê-lo na totalidade?. Por vezes até parece que tem uma vida própria, paralela à nossa. Como se eu tivesse uma alma e o meu corpo tivesse outra.
Mas de que me adiantava compreender a causa se não houvesse uma cura para tudo isso?. A médica contou-me então que a única cura existente para esse problema era a cura do nosso espírito e recomendou-me tomar um poderoso chá de vida. Que era tudo psicológico e, como tal, só podia corrigir essa falha fortalecendo a minha alma, a minha vontade de viver, a confiança no meu corpo e fazer subir a minha baixa auto-estima. Obviamente que regateei imediatamente. Era muito mais fácil falar do que fazer. Será que a médica julgava mesmo que nunca tinha tentado fazer isso antes? E os ataques, como conseguiria para-los quando eles surgissem? Será que só tinha de ficar quietinho no meu canto à espera que eles decidissem ir embora? Ao que ela me respondeu.....EXACTAMENTE.
Confesso que estava a espera de tudo menos daquele "exactamente". Mas, contudo, não podia negar que aquela pessoa era a única que estava a fornecer-me respostas imediatas e coerentes desde que o meu problema tinha surgido e, só por isso, tinha que lhe dar todo o meu crédito. O que ela disse em seguida foi o "clic" que eu precisava para iniciar a minha recuperação quase imediata. Sucintamente, descreveu-me todos os sintomas que tinha relatado mais alguns que me tinha esquecido de relatar e colocou-me uma questão muito importante. Perguntou-me se ao fim de cada ataque eu tinha morrido alguma vez. Mas é claro que não, eu estava ali ao pé dela ou será que não me via?!. Então, perguntou-me ela, se nunca morreu do que é que você tem medo afinal? Da mesma forma como vem, os seus ataques também não acabam sempre por ir embora?. Mas que raio de pergunta...tinha medo porque...porque...porque...porque...porque...PORRA!, por mais que pensasse, já não tinha qualquer resposta inteligente para isso.
E foi então nesse momento que me consciencializei definitivamente. Se era verdade que sentia a minha cabeça a rebentar, mais verdade ainda é que ela nunca chegou a arrebentar (Ora deixem-me ver...sim, está confirmado, ela continua por cá! um pouco acima dos meus ombros..). Quando sentia que estava a ficar sem ar e não conseguia respirar, passados alguns segundos o ar voltava sempre. Se perdia a visão, ela voltava segundos depois. Se sentia tonturas e vertigens, passado alguns minutos tudo isso estabilizava. Se sentia as pernas a ceder, ao fim de alguns minutos voltava a conseguir caminhar como se nada tivesse acontecido. Se sentia que estava a morrer...a verdade é que nunca tinha morrido. Por isso, sim, do que é que eu tinha medo afinal?. A médica sorriu e uma vez que já tinha ganho consciência do problema, recomendou-me apenas que ficasse quieto de cada vez que surgisse qualquer ataque de pânico e tentasse me acalmar até que o mesmo desaparecesse. Vai ver que gradualmente os seus ataques irão ser cada vez mais pequenos e menos intensos, até deixarem definitivamente de aparecer, disse-me ela. E foi o que aconteceu. Bendita seja a minha médica. Dava-lhe muitos beijos se não tivesse o receio de ela gostar e depois quisesse mais qualquer coisa. Nos dias que se seguiram cumpri integralmente as recomendações da minha médica e os efeitos foram drasticamente animadores. Quando surgia um ataque de pânico limitava-me apenas a ficar quieto e a permanecer o mais tranquilo possível até que o efeito maligno passasse porque no fim de contas...agora já sabia o que isto era e sabia que não podia fazer-me mal nenhum. Assim, os sintomas mais fortes duraram apenas mais alguns dias e depois deixaram literalmente de acontecer. Durante uns tempos senti apenas alguns efeitos mais leves e passageiros e depois deixei de sentir qualquer ataque. Tinha conseguido vencer mais uma grande batalha...
« O que não nos derruba, torna-nos mais fortes...» (Friedrich Nietzsche)
E em quê que mudei afinal? hahaha...desculpem mas isso será tema para um próximo post...