Dizem que a sociedade portuguesa actual possui muito mais cultura e educação quando comparada com algumas do antigamente. Os jovens de hoje são muito mais educados e respeitosos, e defendem grandes causas, fazendo um total contraste com os "brutamontes", "cascas grossas" e "patos bravos" que a doutrina de Salazar supostamente cagou da 4ª classe para as ruas, numa altura em que existia uma realidade cultural muito diferente desta. Confesso que desconheço se tal afirmação é verdadeira ou não, já que, embora já esteja a viver a ternura dos quarenta, não sou suficientemente velho a ponto de saber tudo o que se fazia no tempo da Maria Cachucha, mas há determinadas factores que, infelizmente, não consigo deixar passar em claro e ofereço-me o pleno direito de criticar. Antigamente, quando era apenas um "menino" e entrava com o meu pai numa loja ou num café, via toda a gente retribuir o "bom dia" que o meu pai ofertava às pessoas ali presentes, mas, hoje, numa situação semelhante mas com outros intervenientes, quando se oferta um "bom dia" constato que agora...já ninguém responde. Está tudo rico. Está tudo bem servido e feliz. Ninguém precisa de nada e são todos demasiado importantes. Tão importantes como uma guitarra a tocar num enterro, ouso dizer, ou então, será simplesmente o fruto da educação e cultura que receberam que, por ser tão rica, grande, variada e recheada em conteúdo, já nem sequer dá para ser traduzida em palavras...
Quando era jovem, ou pelo menos, bem mais jovem do que sou hoje, a minha madrinha de baptismo, mulher devota e fiel seguidora dos ensinamentos da fé cristã, negava-se de todo a aceitar que eu tivesse decidido abandonar a via religiosa por ter ficado desiludido com tudo aquilo que ela representava para o mundo. Era uma mulher simples, de trato fácil, que eu admirava imenso, e que tinha opiniões quase sempre acertadas, esforçando-se por fazer o bem, tratar com respeito o mundo à sua volta e nunca carregar com ela o peso de ter sido injusta com alguém. O melhor que pode acontecer ao ser humano é poder dormir todos os dias com a sua consciência limpa, dizia ela e muito bem. Como ela achava que o meu afastamento tinha sido causado por acção e influência destas "modernices" agravada pela ideia imatura - muito propícia para rapazes da minha idade - de achar o conceito da Igreja Católica aborrecido, e como no país já estavam a ser implementadas outras opções bem mais divertidas de viver a nossa religiosidade, fazendo contraste com aquelas missas aborrecidas que nunca mais acabavam e tinham sermões de hora e meia, vai dai...lembrou-se de começar a seduzir-me com a possibilidade de assistir a programas religiosos diferentes, muito mais animados e modernos, com a promessa de haver sempre uma recompensa reservada para mim no final. O seu plano era simples mas terrivelmente encantador. Com a desculpa de não conhecer a cidade e ficar confusa com os horários dos transportes públicos, uma a duas vezes por mês, telefonava para a minha casa e pedia-me que a levasse certos domingos até ao Coliseu do Porto para assistir às missas da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), já que, embora ainda estivesse a dar os seus primeiros passos por terras lusas, essa igreja já gozava de uma projecção considerável no nosso país, despertando o interesse de todos aqueles que moravam nas redondezas. Obviamente que a minha madrinha prometia pagar-me a gasolina e obviamente que também tinha direito a comer um lanchinho e meter uma notinha no bolso no final do espectáculo. Era assim aquela mulher, uma querida, e a nossa parceria conseguia satisfazer as necessidades de ambos. Ela vivia a ilusão de que estava a curar a minha alma, promovendo a minha "evangelização", e eu ficava com dinheiro extra no bolso para comprar tabaco, jogar bilhar de mesa e pagar uns copos às miúdas que ia conhecendo nas discotecas, antes de conseguir metê-las na traseira do meu carro para dar umas trollitadas junto ao rio e deixar os vidros embaciados por causa do calor. Tanto eu como ela mantínhamos um bom propósito, logo, como podem ver, ele só podia receber a bênção de Deus.
Mas chegou uma altura em que nem sequer as notas conseguiam convencer-me e comecei a inventar desculpas para evitar essas saídas. De que o meu carro estava avariado, de que tinha outra saída programada com os amigos a qual não podia faltar, de que ia participar num passeio de autocarro até Fátima (hahahaha), de que tinha arranjado uma namorada e era um pouco cedo metê-la nesses caminhos, e outras coisas assim do género. Não é que não gostasse da companhia da minha madrinha pois adorava aquela mulher, mas eu já não conseguia mais representar aquele papel. Sentia-me uma pessoa hipócrita, mentirosa, suja, porque percebi que estava a aproveitar-me da ingenuidade de uma pessoa que apenas sentia amor por mim. Não estava a ser bonito para mim nem justo para ela. Era tempo de virar aquela página. Nos inícios tudo bem, ainda consegui achar alguma piada por ver todo aquele folclore bem ensaiado e muito melhor representado, de bispos a falar com sotaque brasileiro, que punham-se celebrar missas cantadas com piano e guitarra por...brasileiros, com gente histérica toda ela aos gritos (normalmente brasileiros) por ver diabos a ser expulsos do corpo de...pois, mais brasileiros ainda. Era tudo brasileiro, que raio de coincidência mais milagrosa. Em poucas sessões percebi logo de que tudo aquilo era um espectáculo montado e pura charlatanice e de certa forma eu acabava por sentir-me em casa porque, pelo trabalho que eu estava ali a fazer, estava a ser outro charlatão tão grande quanto eles. O conceito da IURD era terrivelmente eficiente porque oferecia tudo aquilo que o ser humano adora receber. Sentimentos. Havia alegria, festa, sorrisos, tristeza, lágrimas, muita música, o ideal de que todos somos importantes e temos o nosso lugar no mundo e...também o medo. Sim medo, e daquele bem medonho, porque de cada vez que um Bispo conseguia expulsar o diabo do corpo de alguém ficava logo tudo apavorado com a possibilidade de ele não sair da sala e querer meter-se no corpo de outro. E para que isso não acontecesse, ficava bem perceptível de uma forma mais ou menos directa que era necessário pagar o dizimo. Com dinheiro, ouro, jóias, donativos, cheques ou cartões de crédito, tanto fazia, o importante mesmo era pagar para evitar qualquer desgosto e obter a protecção do nosso mui kirido e amado jasuus cristo nosso sinhor e salvador. Hey man! Enfim, no fundo eles não estavam a fazer nada que fosse diferente daquilo que a Igreja Católica tem feito ao longo dos séculos, a única diferença é que estavam a fazer tudo isso de uma forma mais descarada e desenvergonhada, com mais animação e com muito melhor ambiente de festa. Quando em 1977 o bispo Edir Macedo esboçou os primeiros traços daquilo que viria a ser muitos anos mais tarde esta máquina gigante de vender ilusões, deve ter tomado em consideração que havia 2,4 biliões de cristãos por todo o mundo e que isso dava um bolo demasiado enorme, logo, porque haveria de ser comido apenas por cerca de 1/2 dúzia? Havia lugar para mais um e assim foi formada uma nova empresa, e toda a empresa necessita de vender o seu produto para gerar dinheiro, nem que seja à custa da fé e da ingenuidade das pessoas.
E é por tudo isso também que não estou nada espantado com o teor das últimas noticias que tem surgido na praça pública e que envolvem o nome da IURD num alegado esquema de adopção ilegal de crianças, despoletadas por uma reportagem chamada "O segredo dos Deuses" que passou recentemente na TVI. Se acredito que eles estejam metidos naquela porcaria? Mas é claro que sim, devem estar enterrados nela até o pescoço. O tráfico internacional de crianças não rende muito dinheiro? Logo, é natural que ela esteja metida nisso. O dinheiro manda em tudo ó genti!
Mas tudo isso é fruto da minha subjectividade enquanto ser humano e num estado de direito com mecanismos próprios para fazer justiça, ela de nada serve e vale apenas aquilo que vale. Assim, como expectador interessado, irei manter-me na expectativa de ver o desenrolar dos próximos capítulos e saber que diligências a IURD irá tomar para conseguir sair desta embrulhada. Para já reconheço-lhe uma ideia inteligente. Como os próximos meses prometem ser muito ruins, com a revelação de vários casos de crianças raptadas e adopções ilegais que surgirão certamente na pública e poderão manchar irremediavelmente a imagem dessa igreja, a IURD tomou a opção inteligente de convocar um "jejum de notícias" à sua legião de seguidores. Como grande conhecedora das fraquezas humanas, essa organização religiosa sabe muito bem que todas as notícias que chegam ao expectador surgem sempre em momentos pontuais e nunca deixam de ter um efeito esporádico e passageiro. Quando o assunto ficar esgotado e a poeira assentar, tudo voltará à normalidade e a comunicação social irá tratar de morder os calcanhares a outro para arranjar um novo assunto. Assim, mais importante do que limpar a nossa casa da vergonha e atestar a qualidade do nosso produto, é saber manter as preferências da nossa clientela e não a deixar fugir. Aquilo que as pessoas não sabem, também não as pode prejudicar, logo, enquanto essa polémica andar no ar...há que fazer um jejum de notícias e manter tudo no segredo dos deuses...
E a justiça essa...bem sabemos a forma como ela funciona e aquilo que ela costuma valer em Portugal. Tal como já tinha dito em cima, o dinheiro manda em tudo ó genti!
Sempre adorei o Natal. Uma adoração que me acompanha desde a minha infância, como é óbvio, embora nem sequer possa dizer que ela tenha sido particularmente feliz. Como já disse há tempos noutro boteco mais famoso e mais visitado do que este, nunca tive direito a viver natais memoráveis que pudessem ser relembrados carinhosamente ou sequer guardar no coração. Por razões que me escuso relembrar neste momento, a verdade é que eu nunca soube o que era receber uma prenda de Natal. Mas nem por isso ele deixava de ser mágico porque se por um lado não havia lugar à oferta de prendas por outro o que não faltava na minha casa era calor humano. Da minha mãe sobretudo porque o meu pai, esse, estava quase sempre bêbedo e levei demasiados anos a tentar esquecer toda a porrada que levava dele. A nossa mãe gostava muito de cantar para nós, principalmente as músicas de Linda de Suza (uma verdadeira heroína no seio dos emigrantes) e também algumas outras da sua infância. Na Ceia de Natal comia-se sempre bem e como mandava a tradição, bacalhau cozido com batatas e molhos fervido de azeite com muita cebolada, e no final havia sempre um sortido de bolachas que era carinhosamente colocado sobre a mesa, cujas aquelas que tinham uma cobertura de chocolate eram imediatamente disputadas por mim e pelos meus 4 irmãos. A minha irmã mais nova tinha sempre a sorte "obrigatória" de levar com uma mas eu só tinha a oportunidade de comer uma se fosse muito ladino e conseguisse metê-la logo à boca porque como era o 2º mais velho dos irmãos era logo pressionado pelo meu pai a deixar as melhores bolachas para os meus irmãos mais novos. Dos natais passados lembro-me ainda da catrefada de desenhos animados que passava na televisão e que faziam as delícias de qualquer criança. À noite o pinheiro de Natal brilhava com especial beleza e muitas vezes ficava sentado no chão e acabava por adormecer de tanto olhar para ele. De manhã acordava sempre deitado na cama sem conseguir relembrar-me de como tinha ido lá parar. Era este o meu Natal e, apesar de parecer um pouco triste, achei-o sempre maravilhoso. Acho que o mais duro de superar foi talvez a dura crença que alimentei durante largos anos da minha infância de ter sido uma criança "mazinha" porque todos os anos o Pai Natal nunca se lembrava de mim. Fazia umas orações à noite, pedia perdão ao anjo da guarda e ao menino jesus, prometia portar-me o melhor que podia (ou sabia) mas depois acordava de manhã e tinha sempre o meu sapatinho vazio. Nunca tinha direito a nada. Depois, nos dias seguintes quando voltava para a escola, ouvia os meus colegas de turma contar as suas peripécias e todas as coisas bonitas que tinham recebido e lá ficava eu no meu cantinho, triste, desolado, sem revelar a ninguém que não tinha recebido nada. Sabe-se lá o que eles podiam pensar de mim e para uma criança que vivia no estrangeiro qualquer pretexto era bom para levar porrada. Foi por isso que quando eu soube que, afinal, o Pai Natal não existia de verdade e que era apenas uma invenção criada pelos pais, em vez de ter sido uma desilusão acabou por tornar-se um grande alívio e tudo passou a fazer mais sentido para mim. Devo ter sido a primeira e única criança no mundo inteiro a ficar feliz por saber que o Pai Natal não existia porque assim voltei a acreditar que podia ser tão boa criança quanto seria qualquer outra naquela altura.
Hoje os meus natais são muito diferentes. Muito mesmo, nem sequer há comparação possível. É certo que perdeu-se alguma da magia que só o mundo visto pelos olhos de uma criança consegue alimentar mas em contrapartida aquilo que ele perdeu em termos de mistério acabou por ganhar em termos de intensidade. Hoje sou eu a assumir o papel de "patriarca" e trago dentro de mim duas grandes escolas. A do meu pai e a da minha mãe. A minha mãe transmitiu-me tudo aquilo que representa a força e união de uma família e o meu pai aquilo que representa o seu declínio e fim. Não sinto nenhum tipo de tristeza em reconhecer isso mas se hoje sou o pai que sou para os meus filhos, devo isso ao amor que recebi da minha mãe mas, essencialmente, aos exemplos que recebi do meu pai por ter procurado ao longo da minha vida nunca ser igual a ele. De querer, com toda a força e alma, ser literalmente o seu oposto. O meu pai inspirou-me como ninguém porque foi sempre a maior exemplificação de tudo aquilo que um pai não devia ser. Mas mesmo que seja pelas piores das razões só tenho que ser-lhe grato por isso. Nunca irei guardar-lhe rancor. Ontem à noite, sentados à volta da mesa com o bacalhau a fumegar, o molho de azeite ainda a fervilhar e os estômagos a roncar de fome, voltamos a dar as mãos uns aos outros como fazemos todos os anos como forma de agradecimento por estarmos juntos e continuarmos a ser uma família coesa e unida. Depois os sorrisos engrandeceram quando chegaram as sobremesas, com aletria, rabanadas, sonhos, pão de ló, bolo de rei de chocolate, bolo de avelãs e um delicioso "Tronco de Natal". Era demasiada doçaria para uma família de quatro pessoas, eu sei, mas entre ontem e hoje e o mais tardar amanhã eu sei que tudo aquilo vai desaparecer num instante (e eu vou ajudar bastante para que isso aconteça hehehe). Por fim quando chegou a hora de distribuir as prendas os sorrisos passaram de orelha à orelha e foi o êxtase total. O meu filho mais velho foi brindado com o último livro da saga do Harry Potter (Harry Potter e a Criança Amaldiçoada - J.K. Rowling ) que ele tanto queria, um pijama e uma caixa de bombons "Raffaello" que nesta casa só há gente gulosa. O filhote mais novo esse recebeu um peluche de girafa gigante, o livro de um "youtuber" famoso que já nem lembro o nome, um casaco para o inverno e também uma caixa de bombons da Nestlé (outro lambão). A jolie-lá-de-casa recebeu dos miúdos uma caixa de bombons "Ferrero Rocher", outra da "Caja Roja" (vai ser cagar bombons toda a semana), uma camiseta bordada muito elegante e um perfume do António Banderas que ela tanto adora (diz que é parecido comigo mas não sei se acredito). A minha sogra, que não gosta de bombons nem de doces felizmente, teve direito a uma "mantinha" polar toda catita para mantê-la quente quando estiver sentada no sofá da sala a ver televisão e eu tive direito a uma caixinha de trufas de chocolate (adoro!!) e um perfume em frasco azul do....nem vão acreditar, António Banderas for man hehehe (não há dúvidas de que a minha mulher gosta mesmo dele). Depois da distribuição das prendas terminamos o nosso serão a ver "Olaf - Uma aventura de Natal" e "A viagem de Arlo - O bom dinossauro", todos juntos sentados no sofá. No canto da sala o pinheiro de Natal continua a brilhar e o seu brilho está mais radiante que nunca. Há coisas que nunca mudam e que nos acompanham desde sempre.
« Cansei-me do mundo e, por vias disso, o mundo também acabou por desistir de mim. Vivo bem com isso, mas, como não quero fazer guerras contra a parte do mundo que me conhece, tento incomodá-la o menos possível...» (Francisco o Pensador)
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Esta afirmação representa as bases do meu novo eu. Uma afirmação quase verdadeira que decerto irá chocar e entristecer algumas pessoas mas à qual, obviamente, não conseguirei fugir por ela ser o farol de tudo aquilo que hoje sou. Mas descansem que isso não significa que esteja de costas voltadas para o mundo. Não, ainda não decidi fechar-me num iglu nem tenciono viver numa ilha deserta. Quero apenas paz e sossego na minha vida e deixar de me preocupar com os outros. Sim, reconheço que dessa forma acabo por fechar um pouco as portas do meu "mundo" e negar ao resto do mundo a possibilidade de me surpreender, mas quando algo nos surpreende quase sempre de forma negativa...que sentimento de perda podemos alimentar dentro de nós? Pouco ou nenhum. No fundo acho que até estou a dar a melhor oportunidade que se pode dar ao mundo, porque, se esperar o pior dele...tudo o que vier da sua parte que seja bom acaba por ser considerado lucro. Neste Post que fiz anteriormente, falei-vos sobre aquela que foi a fase mais tormentosa e mais negra da minha vida. Mas agora irei falar-vos sobre como tudo isso me afectou emocionalmente, moldou-me enquanto ser humano e conduziu-me para uma nova forma de viver. Nos tempos em que os meus ataques de pânico obrigaram-me a desistir do meu emprego e forçaram-me a permanecer em casa, escusado será dizer que, emocionalmente, eu sentia-me o homem mais inútil à face da terra. Quem era eu afinal? e que faço eu aqui neste mundo se for para dar trabalho à minha família, pensava eu muitas vezes. Nunca me ocorreu ideias parvas como o suicídio, mas na minha mente tornava-se claro que eu tinha-me tornado um fardo e que a minha família viveria muito melhor sem sim. É por isso que durante uma fase tornei-me uma pessoa aborrecida, chata, agressiva e antipática, quase como se o meu inconsciente quisesse convidar a minha família a expulsar-me de casa. Regateava, maltratava, era severo e castigador. A minha mulher e os meus filhos começaram obviamente a estranhar tudo isso. O ambiente tornou-se bastante mau mas é nessas horas que o verdadeiro amor é posto à prova. E a minha mulher tinha-me muito amor. Assim, todo o esforço que eu tinha feito para anular o seu amor por mim, só fez com que ele se tornasse mais forte ainda. Como eu amo a minha mulher. Como eu amo a minha deusa. Como já vos tinha dito anteriormente, devidos aos ataques de pânico de que fui alvo fiquei quase 8 meses em casa sem trabalhar, deixando-me imenso tempo disponível para poder pensar na vida. Uma coisa conduz forçosamente à outra e quando dei por ela, já estava a fazer um espécie de "check-up" à minha alma, revisitando os momentos mais marcantes da minha história e todos os passos que dei até ser conduzido até aquele momento. Decidi finalmente ver-me ao espelho e aceitar o homem que eu via do outro lado. Porque no fim de contas, aquele homem era eu. Um "eu" que sempre existiu, que sempre esteve lá, mas que eu reneguei sempre porque só ele sabia mostrar-me aquilo que eu mais temia. A minha vulnerabilidade. Mas para compreender o homem, primeiro é necessário conhecer a sua história e há algumas histórias para contar...
Certo dia conheci o Filipe. Era um rapaz impecável, tímido quanto baste, bom colega, brincalhão, engraçado e encantador. Eu e ele partilhámos no passado a mesma sorte/infelicidade de pertencer à mesma turma, numa daquelas escolas cujas recordações geradas e guardadas da minha infância foram apagadas rapidamente da minha memória. O Filipe tinha acabado de mudar de escola e eu servi de ponte para poder facilitar a sua adaptação. Era a única companhia dos meus receios. Um estrangeiro no meio de um povo nativo, como eu. E era o único amigo que tinha tido até aquela data. Certo dia o Filipe, numa das suas intrépidas brincadeiras, fez cair um armário na nossa sala de aula. Como eu já conhecia o "ambiente" e sabia quais seriam as consequências, assumi perante os professores que tinha sido eu. Nesse certo dia recebi 20 réguadas nas mãos como castigo, 10 em cada uma (nada que já não tivesse vivenciado antes). Minha pele chorava de dor, meus olhos choravam de raiva, mas o meu coração chorava de felicidade. O Filipe foi poupado e não teve que sofrer. Mas, certo dia, alguns rapazes da escola, talvez aborrecidos com o tempo ou com a quantidade de nuvens que se fartaram de contar nos céus, decidiram castigar o Filipe por passar mais tempo comigo do que a alinhar nas brincadeiras deles. Pegaram no rapaz à força e, sem dó nem piedade, mergulharam várias vezes a cabeça dele dentro da sanita da casa de banho. O Filipe sentiu-se tão humilhado e ganhou tanto medo que nunca mais ousou brincar comigo. Eu compreendi. Nessa altura tinha cerca de 10 anos e até os meus 16 nunca mais soube o que era ter um amigo.
Certo dia conheci o Carlos. Tinha acabado de chegar a Portugal e tivemos também a sorte de partilhar a mesma escola. Numa daquelas cujas recordações de adolescente guardei carinhosamente até hoje. Simpatizamos imediatamente um com o outro. Era a minha 2ª oportunidade de ter um amigo. Éramos inseparáveis, fazíamos tudo juntos e parecíamos quase irmãos. Certo dia ingressei no Rancho Folclórico da minha freguesia por razões que irei referir mais adiante. Para além disso, dançava, cantava, lanchava e viajava por todo o país de borla, nessa altura que podia eu querer mais? Alguns meses mais tarde, e de tanto me ouvir falar sobre ele, o Carlos também ingressou nesse dito Rancho para poder participar também nessa parte da minha vida. E certo dia...o Carlos apaixonou-se por uma rapariga linda sem jamais saber que eu já gostava dela muito antes de ele entrar para o rancho. Certo dia o Carlos, sem saber como, conseguiu seduzi-la...e a partir desse certo dia, o meu amigo passou a ter o seu tempo tão ocupado que deixou de ter tempo para mim. Aceitei e resignei-me perante este facto. A vida era mesmo assim.
Certo dia conheci a Alexandrina. Era uma rapariga linda que ensinava catequese aos domingos e dançava no Rancho Folclórico da minha freguesia. Para me aproximar dela, voluntariei-me para também dar catequese aos miúdos e ingressei no mesmo Rancho que ela. Só queria ter a oportunidade de a ver...e de estar perto dela. De conhecê-la. Certo dia, com muito esforço, engenho e perseverança, consegui aproximar-me dela, mas, certo dia, contra tudo o que gostaria que fosse, tornei-me o melhor amigo dela em vez de...namorado. A Alexandrina desabafava tudo comigo e fazia-me todo o tipo de confidências. Certo dia, confessou-me que gostava do meu amigo Carlos e pediu a minha ajuda para poder se aproximar dele. E certo dia assim fiz. Com a ajuda de muitos elogios, limpei todos os defeitos do meu amigo e coloquei-os no caminho um do outro, até que certo dia...o caminho deles deixou de cruzar com o meu. No ano passado, após mais de 20 anos passados, voltei a cruzar-me com a Alexandrina na rua. Vinha acompanhada da sua filha e contou-me que estava separada do Carlos. Parece que o casamento deles só teve a sorte de durar 6 anos.
Certo dia conheci a Dores. Era uma mulher segura, lutadora, ambiciosa, apaixonada pela vida e era também irmã biológica da minha mulher. A minha mulher tinha sido adoptada quando era bebé e num certo dia decidimos que seria boa ideia conhecer a sua família biológica. Foi nessas circunstâncias que conhecemos a Dores e a empatia entre nós foi quase instantânea. Nessa altura acreditava ser muito difícil existir uma amizade entre um homem e uma mulher mas a Dores conseguiu fazer abalar todas as minhas crenças. Sentia a maior ternura por ela. O maior amor. Para mim era como se fosse uma irmã. Mas não apenas mais uma, era a melhor irmã do mundo. Certo dia fomos visitá-la e reparámos que tinha a despensa da cozinha completamente vazia. A minha cunhada estava a passar por uma grave crise financeira e já não tinha quase nada para meter na boca da sua família. Nesse certo dia, e sem que ela soubesse, fomos ao Pingo Doce e enchemos um carrinho de compras com mantimentos e tudo aquilo que era necessário para que uma casa pudesse funcionar. Gastei mais de 150 Euros mas foi dinheiro gasto com o maior prazer. Lembro-me como eram lindos os seus olhos de felicidade quando naquele dia recebeu de nós aquela enorme surpresa. E lembro-me de me sentir extremamente feliz com tudo isso. Mas certo dia a Dores pediu-nos outro tipo de ajuda. Pediu-nos algum dinheiro a titulo de empréstimo para fazer face a algumas dividas que tinha contraído e que não podia adiar mais do que tinha feito. Sem que ela precisasse de dar mais justificações decidimos emprestar-lhe uma quantia considerável de dinheiro. Mas a partir desse dia tudo mudou. Nas vezes em que decidíamos visitar a Dores, e era habitual encontrá-la em casa, deixamos de conseguir vê-la. Era como se ela soubesse que vínhamos e fugisse sempre antes da nossa chegada. Começámos a sentir alguma vergonha, algum desconforto, e demos-lhe espaço para que ela não se sentisse pressionada com a nossa presença. Podia ser apenas uma fase. Podia ser que ela sentisse algum embaraço por não ter nada para nos dizer nem meios de nos pagar. O dinheiro não me preocupava, mas em vez de amigos...senti que estávamos a ser transformados em inimigos quando a nossa única intenção foi querer ajudá-la. Até que certo dia conseguimos vê-la no Pingo Doce. Vimos a sua filha mais velha alertá-la para a nossa presença, e vimos-lá também fugir rapidamente do nosso alcance de visão quando percebeu que íamos ao seu encontro. Nesse dia não consegui deitar nenhuma lágrima...mas o meu coração ficou partido em tanto pedaços que ainda hoje não consegui juntá-los...
Certo dia conheci o Miguel. Confesso que no inicio não simpatizava minimamente com ele. Achava-o um homem desmazelado, fraco, um derrotado. Era uma pessoa que estava a enfrentar vários problemas familiares e procurava afogar todas as suas mágoas na bebida. Como frequentávamos o mesmo Cyber-café e ele notou que eu era um homem calmo que, por norma, tinha sempre bons conselhos para dar a quem falava comigo, começou a aproximar-se de mim e sem que tivesse havido muitas confianças para tal passou a conversar comigo nas horas em que eu me punha a viajar pela Net. Como não lhe achava piada nenhuma, e nem sequer apreciava a presença dele, fingia ouvir o que ele me relatava enquanto prestava atenção a tudo o que se passava no computador. O meu plano era que, a dado momento, o Miguel percebesse que estava a falar para uma parede e tivesse vontade de se afastar de mim. Mas o Miguel tinha tanta fome de afecto que, mesmo eu não estando a ouvir, idealizou-me como se fosse o seu maior confidente. Assim, mal me via no Cyber-café, corria para junto de mim e passava horas sentado ao meu lado a falar sozinho, a desabafar e relatar a sua vida enquanto eu por vezes dizia um "sim", olhava para ele ou abanava a cabeça como se compreendesse cada palavra que me dizia para que não se sentisse mais fragilizado do que já vinha naquela hora. Mas certo dia o impensável aconteceu. De tanto ouvir a sua história, certos trechos ficaram no meu ouvido e acabei por envolver-me. E sem que me desse conta, comecei a simpatizar com ele. Assim, passei a escutá-lo de verdade e a conhecer a sua história a fundo. Com a minha ajuda, o Miguel voltou a recuperar a sua auto-estima e conseguiu ultrapassar vários problemas que estavam a afligi-lo. Inclusive a bebida que passou a ser consumida com bastante moderação quando se sentava ao meu lado. Quando o conheci, parecia um farrapo ambulante mas algum tempo depois de me conhecer...já parecia um homem confiante e bem tratado. Tinha conseguido fazê-lo ver a vida através de uma perspectiva diferente. Eu tinha-me tornado o maior amigo dele e ele estava a tornar-se também um grande amigo para mim. Até que chegou um dia em que o Miguel ficou rico. Literalmente. Era um filho mal amado provindo de uma família abastecida e uma simultaneidade de acontecimentos fez com que ele recebesse uma herança avultada devido à morte do seu pai e de uma tia-avó que ele já nem recordava o nome. O Miguel passou a ter acesso a muitas coisas, a muitos luxos. Os poucos problemas que ele ainda tinha pareciam em vias de terminar, por fim. Até a ex-mulher, causadora das suas maiores tristezas, já tinha voltado para ele. Ele era agora um homem feliz. Assim, o Miguel passou a estar mais ausente e via-o apenas esporadicamente quando aparecia no Café para mostrar-me a última aquisição que tinha feito. Já não tinha a sua velha carrinha e a sua garagem passou a contar com a presença de um AUDI A3, um A4 e um A5 tão bem lustrado que até o "chaço" que tinha acabou por corar de inveja. O Miguel já tinha 2 ou 3 telemóveis a valer cada um 600 Euros e pensava comprar mais um para oferecer à sua filha de 12 anos. Coisa pouca, obviamente. Até que certo dia, desapareceu de vez. Foi passar férias para a China pensei eu algumas vezes. Tudo vai bem, quando acaba bem.
Voltei a vê-lo no ano passado quando novas circunstâncias da vida voltaram a fazê-lo perder tudo aquilo que tinha. Os AUDI'S, a mulher e os telemóveis. Tudo menos a filha que continuava a ter a responsabilidade de educar. Parece que o dinheiro vale muito pouco hoje em dia sobretudo quando o mesmo é gasto ao desbarato. O Miguel estava novamente triste, sentia-se perdido e não sabia o que fazer. Precisava do amigo. Sabia exactamente aquilo que tinha para lhe dizer mas pedi-lhe desculpas por ter a agenda um pouco ocupada naquela hora. Despedi-me sem alegria nem sorrisos e nunca mais entrei naquele Café. Não voltaria a envolver-me.
Certo dia conheci a Ana. Dizem que o seu amor por mim foi imediato mas eu não consigo recordar quando é que nasceu o meu. A Ana tinha uns olhos lindos, esverdeados e brilhantes, que dava para caber o mundo inteiro dentro deles. Era uma mulher de armas, lutadora, trabalhadora, habituada a sofrer e a passar pelas maiores privações. Ana era uma mulher de fé e conseguia cativar todo o mundo à sua volta através do seu enorme sorriso. Com ela havia sempre alegria e umas boas gargalhadas para partilhar à mesa. Seu amor por mim era incondicional. Era verdadeiro, imenso, profundo como o universo. Era um amor que só uma mãe podia sentir e partilhar com o seu filho. Mas certo dia um problema de saúde fez com que a Ana tivesse que ser hospitalizada e, a partir dele, um grande pesadelo germinou na sua vida. A operação deixou-a debilitada da cintura para baixo e devido às dores que sentia pelas várias anestesias a que fora sujeita, a Ana passou a refugiar-se também na bebida. Era o seu único refúgio. Passados alguns anos, o seu consumo de álcool assumia contornos quase industriais. Entrou num estado de depressão muito grande e nada do que podia fazer conseguia fazê-la acordar de novo para a vida. Nem com amor, nem com palavras, nem com abraços, nem com beijinhos. E certo dia, devido a uma cirrose que entretanto criou no fígado, a Ana morreu. E eu também morri com ela.
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Até que certo dia, por fim, também conheci a Nanda.
Nada disso estava previsto, foi uma pura casualidade do destino sermos colocados lado a lado para defendermos os mesmos valores e ideais. Nessa altura, apesar de ter muito amor em casa e haver tanta gente à minha volta, sentia-me terrivelmente sozinho no mundo. Sentia que já não era ninguém, que me tornará invisível, e que a minha voz já não tinha valor para quem quer que fosse. Queria brilhar, queria ser ouvido, sentir-me valorizado mas acima de tudo queria ser...compreendido. E a Nanda possibilitou tudo isso. Deu-me mais valor do que aquele que realmente tinha, tornou-me visível para todos, fez-me sentir importante, valorizado, escutou a minha voz e tornou-me melhor pessoa do que aquela que queria ser na realidade. Mas mais importante do que tudo isso, conseguiu matar a minha solidão. De repente sentia-me alguém. Sentia que tinha voz. Como habituei-me desde sempre a escutar as confidências das pessoas, e ouvir os seus anseios, medos e frustrações, reconheci de imediato as fragilidades que a Nanda revelava e a grande necessidade que ela também sentia de receber afecto, amizade, carinho e atenção. Ajudei-a a superar algumas "barreiras emocionais" e uma grande amizade nasceu entre nós. Tinha encontrado uma grande amiga. A minha melhor amiga de sempre. Mas foi ai, quando tudo parecia ser realmente feito para durar, que o o meu coração começou a encher-se de dúvidas e as recordações do meu passado vieram todas assombrar-me que nem um filme de terror. Nossa amizade era bonita...mas era demasiado bonita para ser verdade. Se tudo se resumisse ao mundo digital teria sido fácil porque podia vender a imagem que me apetecesse, mas, porém, os nossos caminhos, e das nossas famílias, também passaram a cruzar-se no mundo real. A Nanda conheceu o meu verdadeiro mundo e eu conheci o verdadeiro mundo dela, e foi por conhecer esse verdadeiro mundo...que o meu coração esvaziou-se de quaisquer ilusões. Aqui, neste mundo virtual, eu podia ser alguém, poderia eventualmente até ser muito, mas na realidade eu continuava a ser muito pouco. Para além de bom marido e bom pai, continuava a não ser ninguém. A Nanda pertencia à classe média e levava a vida que eu sempre desejei levar. Não era uma vida de rei, mas tinha os graus de elegância e sofisticação que eu sempre sonhei alcançar. Lentamente percebi que aquele mundo nunca seria para mim, porque, por mais que tentasse crescer, nunca conseguiria chegar sequer até aquele nível. E para destruir ainda mais as minhas pretensões, tomei consciência de que na minha vida surgiam sempre todo o tipo de azares. Sempre que parecia caminhar com a cabeça bem levantada surgiam sempre coisas no meu caminho que acabavam por atirar-me ao chão. Ainda hoje é assim, quando consigo dar um passo em frente...acontece sempre algo para obrigar-me a dar cinco passos atrás. E foi num certo dia, quando passei um maravilhoso fim de semana na casa dela com a minha família, e na qual fomos carinhosamente muito bem recebidos mas não tínhamos nada para poder lhe oferecer em troca, que tudo me pareceu claro como o céu limpo de uma noite de lua cheia. Que fazia ali o meu chaço-de-para-choques-traseiro-todo-arrebentado...estacionado ao pé de uma casa onde fui beber "Moët e Chandon"? Sim, podia ser uma linda história mas, tal como aconteceu com todas as outras antes dessa, fosse pela mesma vergonha do Felipe, pelo mesmo desinteresse do Carlos, pela mesma apaixonada miopia da Alexandrina, pelo mesmo egoísmo da Dores, pela mesma soberba do Miguel, pela mesma desistência da Ana, ou fosse por que raio fosse, sabia que também ela acabaria por terminar um dia e eu não me sentia minimamente preparado para ultrapassar isso. Desta vez não. Seria a derradeira facada no meu coração. E por tanto ter sido deixado para trás, aprendi a dizer adeus antes de ser abandonado outra vez...*
Foi por isso que, a partir daquele dia, deixei morrer progressivamente o Francisco e guardei apenas o Pensador. Não queria mais ter coração. Nem queria mais envolver-me com ninguém. Era bom pai e bom chefe de família e aquilo tinha que ser suficiente para mim. Queria ser feliz, e sentir-me em paz, mas para fazer isso...não podia continuar a deixar as pessoas entrar e sair da minha vida como se eu fosse um centro comercial e usarem de mim como se fosse uma máquina distribuidora de café. Desapareci, fechei-me como se passasse a viver numa ilha e construí um muro gigante à minha volta. Tomei consciência de que haviam sido criados em mim, inconscientemente, alguns "fantasmas" desde a minha infância contra os quais não conseguia combater. A certas alturas sempre fui posto de lado e isso afectou-me muito mais do que julgava ser possível. Assim, como disse, desisti do mundo e, por força disso, ele também desistiu de mim. Ou quase. Apesar da minha insistência verifico hoje que ainda falta alguém desistir. E é também por isso que tenho a perfeita consciência de que me tornei uma pessoa má. O "mundo" pode ter sido mau comigo, mas consegui cometer a maior maldade de todas. Fechei o meu coração e desapareci sem deixar rasto. E acabei por deixar o Francisco abrir mão da única pessoa que não merecia ser abandonada.
Mas agora o meu caminho já foi tomado e, agora, já só me resta segui-lo e viver dentro dele...
Dizem que quem tem sorte ao jogo, tem azar no amor...e eu sou a prova viva de como isso é verdade. Como sou um tipo que tem imensa sorte no campo do amor, no passado tive a grande infelicidade de vir a conhecer o chamado "reverso da medalha". Foi em finais de 2014, numa semana em que havia em jogo um jackpot a rondar os 3,2 milhões de Euros no Totoloto, e o meu "azar ao jogo" traduziu-se da forma que se segue nestas imagens...
Mas isso até nem foi nada comparado com aquilo que me aconteceu 2 ou 3 anos antes quando consegui a (inédita?) proeza de acertar nos 6 primeiros números do JOKER e falhar o último que, em vez do 5...tinha jogado o 4...(não guardei fotos porque nessa altura ainda não tinha telemóvel).
Se tivesse acertado nos seis últimos e falhado o primeiro, teria recebido uma pipa de massa e já tinha fugido para o Brasil, mas não, tinha que ser o contrário que não dá direito a receber prémio nenhum. Esta minha mania de ser capaz de fazer sempre o impossível...
O que vale é que, tanto nesse dia como no outro, o sexo com a minha mulher foi maravilhoso o que acaba por atenuar de certa forma estas péssimas recordações. O amor é muito bonito mas está visto que custa bastante caro, mas estando ao lado da minha "chérie" é um preço que eu estou disposto a pagar com todo o gosto. :)
20 Anos. Parece tanto tempo, uma eternidade, no entanto estes anos passaram tão depressa. Demasiado, infelizmente, mas também é natural que assim seja. Quando vivemos uma coisa boa, tudo passa por nós à velocidade da luz. Confesso que no inicio não alimentava grandes expectativas sobre o casamento. Nem entrava no meu imaginário nem sequer acreditava na utilidade desse conceito. Sabia apenas que estava terrivelmente apaixonado pela minha mulher e que morria de vontade de viver ao lado dela. E essa ideia era-me suficiente. Era tão doido por ela, que não foi preciso muito esforço da sua parte para convencer-me a entrar numa igreja, com fatiota e laçarote de cor "Bordeaux", mesmo que não acreditasse nas suas fundações. Bastava-me saber que desse modo eu iria fazê-la feliz. E eu faria tudo para que assim fosse. Como é bonita a paixão e como é bonita essa vontade incessante de querermos estar permanentemente um com o outro.
Devo tudo a esta mulher, num momento muito complicado da minha vida foi ela quem soube trazer-me paz e equilíbrio. Antes dela tive um bom cardápio de namoradas todas elas bem bonecas, magras, bonitas, esbeltas, e bem abastecidas financeiramente, com as quais vivi momentos muito tórridos e cenas só permitidas a maiores de 18. Mas todas elas sofriam do mesmo defeito. Em questão de amor, atenção, prazer e afectividade, elas só gostavam de receber, eram autênticas esponjas, e pouco mais sabiam fazer para além de despir a roupa e ficar quietas para que eu pudesse fazê-las viajar até a lua. Dos meus 18 aos meus 24 anos era só isso que representava para elas. Era uma espécie de homem astronauta. Mas a minha mulher soube alterar tudo isso e preencher essa grande lacuna que tinha na minha alma. A falta de atenção e reciprocidade. Não se limitou a receber todo o amor e prazer que tinha para lhe dar e quis retribuir-me tudo isso em dobro ou pelo menos em igual medida. Com ela sentia que era amado, valorizado. Sentia-me alguém especial. E quando passamos a sentir aquela necessidade inquietante de estar perto de alguém, deixamos de ter quaisquer dúvidas sobre a importância daquela pessoa na nossa vida. A química era imensa, o diálogo era fluido e fácil, e como o tempo que podíamos passar juntos já parecia ser curto, pelo menos aos nossos olhos, o desejo de casar depressa ganhou forma. Já não receava casar, e mesmo que não acreditasse inteiramente nos seus efeitos, ainda assim tinha a noção de que o casamento trazia algumas boas vantagens. Para além daquela vantagem óbvia de termos alguém para aquecer os nossos pézinhos nas noites frias de inverno, sorria de contentamento só de saber o mundo de oportunidades que se deparava diante de mim, nomeadamente a possibilidade de realizar algumas fantasias sexuais e as habituais sessões de sexo tórrido e avassalador que poderiam ser praticadas a qualquer hora do dia, logo que houvesse clima e vontade para o efeito, sem termos que gastar dinheiro com quartos de hotéis ou ter que recorrer ao tradicional carro irrequieto dos vidros embaciados debaixo da ponte (Sim, eu sei, tive que estragar a beleza toda deste texto com graçolas sobre sexo). Assim, no dia em que casei, guardava em mim apenas apenas uma certeza. Se aquela mulher fosse capaz de me aturar durante 5 anos seguidos, eu sabia que iria amá-la para toda a vida.
O nosso casamento começou e decorreu como qualquer bom casamento que se preze. No início foram muitos abraços, beijinhos, sexo, partilha, risadas, sexo, programas a dois, passeios, viagens, mais sexo, diálogo, cumplicidade, vontade constante de estarmos um com o outro, outra vez sexo, piqueniques, praias, cinemas, convívio com a família e amigos, mais sexo ainda, trabalho, planeamento, projectos e para terminar...vai mais um pouco de sexo antes de dormir. Passados estes 20 anos, satisfaz-me saber que, embora muita coisa tenha mudado na nossa vida em comum, o sexo conseguiu ainda assim sair ileso (uma salva de palmas para ele, clap clap clap). Mas nem tudo foram rosas. Ai que não foram mesmo. Também nós, à semelhança de qualquer outro casal, tivemos as nossas crises, as nossas brigas, as nossas pequenas/grandes discussões, mas também foi através delas que tivemos a possibilidade de fazer o nosso amor crescer e florescer no lugar da paixão. Cometi muitos erros e fiz muitas asneiras. Asneiras essas que poderiam ter estragado irremediavelmente o equilíbrio da nossa vida em comum, mas aquela mulher soube sempre perdoar-me tudo. Nunca lhe fui desleal, mas se não fosse alguns erros graves que cometi...hoje poderíamos estar numa situação muito mais segura , relaxante e desafogada em termos financeiros. Sim, aquela mulher aturou muita coisa de mim, e sofreu muito por minha causa. Não tenho vergonha de confessar que se hoje ao fim destes 20 anos conseguimos ainda estar juntos, é tudo graças a ela. É por ela ser uma grande mulher. Sempre foi e será a minha grande rainha. Devo-lhe tudo o que sou hoje, enquanto pai, marido e ser humano. E é por isso que nos próximos 20 anos que se avizinham, apenas alimento um desejo que se tornou quase uma missão: Retribuir-lhe com todo o meu ser, todo o carinho, amor, paixão, compreensão, tolerância, dedicação, paciência e atenção que ela tive todos estes anos para comigo.