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Isto há cada um, que mais parece uma meia dúzia...

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Anteontem passei por uma situação bastante caricata. Há já alguns anos que eu e a minha Jolie-lá-de-casa-credo-mulher-que-só-me-apetece-apertar-essas-bochechas-e-beijar-te-toda ganhamos o hábito de levantar o nosso rabinho da cama um bocadinho mais cedo ao domingo e percorrer as redondezas à procura de uma pastelaria que fosse digna da nossa presença, e do nosso calor humano, a fim de tomar o nosso pequeno-almoço matinal. Sim, eu sei, não foi um domingo mas como era feriado e todos os feriados parecem ser domingos, nesses dias gostamos de aplicar também a mesma rotina. A minha mulher sempre foi particularmente gulosa, enquanto que eu, talvez devido à minha condição masculina que não consigo renegar, sou mais do tipo guloso, o que nos leva a procurar sempre os sítios com a melhor reputação da zona, a fim de sermos surpreendidos e convencidos pelas mais extraordinárias e aprimoradas expressões de criatividade pasteleira, que é como quem diz, adoramos comer bolos. Depois de algum tempo à deriva e alguns litros de gasolina queimada, conseguimos avistar algo que parecia bastante interessante à vista porque exibia um espaço deveras aconchegante e convidativo para casais românticos e amorosos como nós e todo o género de boas famílias. Pedimos uma meia de leite para cada um, um croissant com chocolate para ela e uma nata brasileira para mim. Estava tudo uma perfeita delícia, tão perfeita que nenhum de nós sentiu vontade de refilar quando vimos o valor da conta que foi colocada sobre a mesa, no final. Para quem leva uma vida recatada e ganha milhares de euros todos os meses como eu, o que é que representa uma miserável despesa de 5,20 Euros? isso é o que nós costumamos oferecer ao padre todos os domingos quando vamos à missa, ainda que seja só em sonhos para já, porque, embora tenha casado dentro de uma, nunca me recordo onde é que fica a igreja. Mas aquilo que conta é a intenção, dizem.
Depois daquele momento "Zen" e uma boa meia hora de conversa, decidimos retornar ao nosso "Chez moi". Voltamos para o nosso carro, iniciámos a marcha, contornamos a praceta para tomar a direcção certa e de repente começamos a ver pessoas a sair de uma igreja (era ali a missa?). Como vinha imensa gente, abrandei a minha marcha e fiquei alerta a todos os movimentos exteriores porque conheço demasiado bem o meu povo e sei que nestas horas nunca ninguém se lembra da passadeira nem dos passeios. É sempre tudo ao molho e fé em Deus, e é também por isso que acontecem tantas desgraças. De nada serve ter fé em Deus se alguém estiver no meio de uma rua com carros a circular nos dois sentidos. Mas por mais que sejam ensinados, há sempre gente que não consegue perceber isso e, para o nosso grande azar, calhou-nos um desses na rifa. Já toda a gente tinha passado por nós e estava devidamente arrumada nos passeios, mas um homem de certa idade teimava em caminhar à nossa frente em passo mediano sem mostrar sinais de querer arrumar-se. De casaco de cabedal preto, calça bombazine castanha e sapatilhas Skechers (que me pareciam de senhora), era vê-lo que nem um senhor doutor da mula russa convencido de que a cidade toda lhe pertencia. Buzinei uma vez, olhou-me com desdém e peito cheio e fez de conta que não era nada com ele. Voltei a dar outra pequena buzinadela e ele voltou a cagar-se para o assunto. Normalmente sou uma pessoa muito tolerante nestas situações. Compreendia perfeitamente que aquele sujeito tinha acabado de sair da missa e que a homilia do padre podia ter sido particularmente extasiante ao ponto de levá-lo a encher o peito e achar que tem muito mais valor do que os outros à sua volta por ser filho de Deus. Compreendo também que para muita gente a velhice torna-se sinónima de teimosia, rabugice e fraca lucidez, sobretudo se essa pessoa estiver amargurada por ter levado uma vida de privações em contraste com o clima de libertinagem e a vida privilegiada que a sociedade de hoje parece gozar. Compreendo tudo isso e muito mais ainda, só que, aquele tipo, naquele fraco e preciso momento, estava a estorvar o meu caminho. Vai dai, e totalmente contra a vontade da minha mulher, dei uma valente buzinadela na direcção do sujeito e não descolei a mão da buzina até que o tipo deixasse de se armar em palhaço e saísse da minha frente. O meu plano tinha tudo para resultar e resultou. Depois de perceber que estava a rua inteira a olhar para ele, parou repentinamente, virou-se para mim com um ar terrivelmente ameaçador e proferiu algumas palavras imperceptíveis ao mesmo tempo que gesticulava fervorosamente os seus braços. Mais um nabo armado em super-homem, pensei eu. Mais uma manhã linda que vai ficar estragada, deve ter pensado a minha mulher. Muito francamente não sei explicar o que aconteceu ou porque razão isto tinha que acontecer, só sei dizer que mal sai do carro para falar com o homem e o fulano me viu de pé, o peito dele esvaziou-se que nem uma boneca insuflável furada e desatou a correr que nem um maluco como se estivesse a fugir de algum demónio. Foi incrível, nunca tinha visto um velho a correr tão depressa. Voltei a entrar dentro do carro, olhei incrédulo para a minha mulher e disse. Compreendestes alguma coisa? Não, respondeu-me ela. Vale a pena tentar compreender alguma coisa? perguntou-me ela de volta. Não, respondi eu. E seguimos viagem...

Pergunto-vos agora a vós. O que é que raio se passa com as pessoas?