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Os malefícios do tédio...

O tédio. Para muitos de nós trata-se de um conceito demasiado gasoso em termos de forma e insípido em termos de sabor. Toda a gente o conhece mas são muitos poucos os que percebem os seus malefícios e de que forma ele consegue condicionar a nossa vida. A maioria nem sequer consegue dar-se conta da sua presença, e, se calhar, jamais desconfiará que ele possa ser o maior inimigo do homem. Sim, ele é a verdadeira besta negra. O bicho ruim. O diabo na sua forma original. É ele o principal gerador da discórdia e grande promotor de guerras. É ele o alimentador de ódios, criador de divórcios, fomentador de disputas e discussões, e causador das práticas humanas mais horríveis. A maioria de nós , como já disse, não tem muita noção da força que este elemento negativo consegue exercer no seu quotidiano e se ela não estivesse tão ocupada a tentar resolver/valorizar questões físicas ou materiais, de pouca fraca ou nenhuma importância, poderia facilmente localizar este grande e decisivo factor na sua vida. Os seus sinais estão presentes por todo o lado. Só precisamos de abrir os olhos e observar.
Mas o que é isso do tédio, perguntam vocês? A Wikipédia define-o como um sentimento humano descrito como um estado de falta de estímulo, ou do presenciamento de uma acção ou estado repetitivo, como por exemplo, a falta de coisas interessantes para fazer, sentir, ouvir, etc. Ou por outras palavras, é o estado de alguém agastado pela rotina e/ou que se aborrece de morte quando não pode fazer nada ou, pelo menos, nada que lhe seja interessante. Rotina, tédio, aborrecimento, eis a receita dum cocktail explosivo que pode destruir qualquer resquício de serenidade e bom senso que o ser humano possa ter. Vive-se bem enquanto se pode lutar contra tudo isso, porque depois de sermos abraçados, de sermos "amarrados" pelo tédio, nossa vida nunca mais será igual. Nunca mais seremos felizes. E como é que o tédio consegue entrar na vossa vida? Nada de mais simples, e para que fiquem devidamente esclarecidos, tenho uma bonita história para vos contar. Quando era mais novo, isto é, mais novo do que sou hoje, conheci um professor admirável que soube dar-me um grande exemplo do que eu poderia esperar da vida em geral e do casamento em particular.

«Em termos culinários, perguntou-me ele, diz-me o nome do teu prato preferido. Leitão à Bairrada, respondi eu prontamente. Muito bem, prosseguiu ele, então imagina que tens muito dinheiro e que podes fazer tudo aquilo que quiseres. Para comer o melhor "Leitão à Bairrada do mundo", serias capaz de pegar no teu carro e percorrer 600 Quilómetros num só dia, certo?. Certo, respondi eu. Mas, e se eu começasse a servir-te o "Melhor Leitão à Bairrada do mundo" todos os dias, em todas as tuas refeições, como te sentirias?. Credo!ficaria enjoado num instante. Acho que já nem poderia ver mais Leitão à minha frente, ironizei eu. Ora ai está a verdadeira lição que a vida nos fornece, complementou ele, porque em todas as relações que vais estabelecer na vida, sejam elas de que tipo for, o processo vai ser exactamente igual.»

Esta foi a maior lição que tive o privilégio de receber até hoje e tem-me ajudado imenso a compreender tudo aquilo que se tem passado à minha volta. Embora de um modo diferente, ensinou-me a reconhecer o tédio e o modo como ele consegue instalar-se facilmente na nossa vida através da rotina. Desde ai tenho aprendido sempre novas formas de combatê-lo, de anulá-lo, afastá-lo, ou, pelo menos, de não me deixar agarrar por ele sem dar devida luta. E isso tem-me trazido bons benefícios. Foi também através deste exemplo que compreendi o significado daquele ditado popular que diz: « A comida da vizinha sabe sempre melhor que a minha». Sabe melhor apenas por ser diferente. E o que é diferente anula a rotina. Anulando a rotina, anula-se também o tédio. O enfado, o fastio, a monotonia. O aborrecimento.


Disse que sim, porque sentia-me aborrecida...

Se me lembrei de escrever este post hoje, foi sobretudo a pensar na pequena discussão que estava a promover com alguns anónimos (nunca sei se são muitos ou apenas um) no site do Shiuuuu. Nessa pequena discussão, que pode ser acompanhada aqui, um anónimo questionou-me se era possível alguém ficar sexualmente saciado vendo apenas um filme pornográfico. Respondi-lhe que sim, que se a necessidade do individuo fosse apenas espiritual/emocional, como é o caso de um "Voyeur", ela poderia perfeitamente ser preenchida através dessa forma. Mas quando questionaram no site qual a necessidade que leva alguém a ver filmes pornográficos quando pode desfrutar da mulher que tem ao seu lado, lembrei-me imediatamente do factor tédio. É verdade, à semelhança do que acontece em todos os outros tipos de relações, nas relações sexuais aplica-se também os efeitos do famoso conceito do "Leitão à Bairrada". E de nada serve ter a mulher (ou homem) mais linda do mundo, mais "sexy" e mais gostosa, a dormir ao nosso lado. De tanto comer o mesmo prato (perdoem-me a brejeirice) acaba sempre por instalar-se o fastio mais dia menos dia. Fastio esse que é preciso contrariar. Combater com unhas e dentes. Com diversidade, partilha a dois, mente aberta e montanhas de criatividade. Nas relações sexuais torna-se impetuosamente necessário vencer alguns tabus e derrubar as barreiras culturais que nos impedem de ver a sexualidade num sentido mais amplo. No sentido que pode tornar o ser humano mais feliz. Porque o sexo do século XXI já há muito tempo que deixou de ser o sexo de "Adão e Eva" que, na boca de alguns, apenas servia para fazer filhos e qualquer sintoma de prazer que houvesse era considerado um tremendo pecado. E é um pecado sim, é um pecado a nossa vida ser tão curta e não termos tempo de fazer mais. Para mim, logo que ele não prejudique ninguém, no sexo não há lugar para imoralidades. Sejam elas bíblicas, culturais ou sociais. Não há certo nem errado. Nem sequer o bonito ou feio. São apenas necessidades fisiológicas alimentadas por uma série de gostos e fantasias humanas. E tomara eu conseguir realizar muitas das minhas.