27 junho, 2017

Os malefícios do tédio...

O tédio. Para muitos de nós trata-se de um conceito demasiado gasoso em termos de forma e insípido em termos de sabor. Toda a gente o conhece mas são muitos poucos os que percebem os seus malefícios e de que forma ele consegue condicionar a nossa vida. A maioria nem sequer consegue dar-se conta da sua presença, e, se calhar, jamais desconfiará que ele possa ser o maior inimigo do homem. Sim, ele é a verdadeira besta negra. O bicho ruim. O diabo na sua forma original. É ele o principal gerador da discórdia e grande promotor de guerras. É ele o alimentador de ódios, criador de divórcios, fomentador de disputas e discussões, e causador das práticas humanas mais horríveis. A maioria de nós , como já disse, não tem muita noção da força que este elemento negativo consegue exercer no seu quotidiano e se ela não estivesse tão ocupada a tentar resolver/valorizar questões físicas ou materiais, de pouca fraca ou nenhuma importância, poderia facilmente localizar este grande e decisivo factor na sua vida. Os seus sinais estão presentes por todo o lado. Só precisamos de abrir os olhos e observar.
Mas o que é isso do tédio, perguntam vocês? A Wikipédia define-o como um sentimento humano descrito como um estado de falta de estímulo, ou do presenciamento de uma acção ou estado repetitivo, como por exemplo, a falta de coisas interessantes para fazer, sentir, ouvir, etc. Ou por outras palavras, é o estado de alguém agastado pela rotina e/ou que se aborrece de morte quando não pode fazer nada ou, pelo menos, nada que lhe seja interessante. Rotina, tédio, aborrecimento, eis a receita dum cocktail explosivo que pode destruir qualquer resquício de serenidade e bom senso que o ser humano possa ter. Vive-se bem enquanto se pode lutar contra tudo isso, porque depois de sermos abraçados, de sermos "amarrados" pelo tédio, nossa vida nunca mais será igual. Nunca mais seremos felizes. E como é que o tédio consegue entrar na vossa vida? Nada de mais simples, e para que fiquem devidamente esclarecidos, tenho uma bonita história para vos contar. Quando era mais novo, isto é, mais novo do que sou hoje, conheci um professor admirável que soube dar-me um grande exemplo do que eu poderia esperar da vida em geral e do casamento em particular.

«Em termos culinários, perguntou-me ele, diz-me o nome do teu prato preferido. Leitão à Bairrada, respondi eu prontamente. Muito bem, prosseguiu ele, então imagina que tens muito dinheiro e que podes fazer tudo aquilo que quiseres. Para comer o melhor "Leitão à Bairrada do mundo", serias capaz de pegar no teu carro e percorrer 600 Quilómetros num só dia, certo?. Certo, respondi eu. Mas, e se eu começasse a servir-te o "Melhor Leitão à Bairrada do mundo" todos os dias, em todas as tuas refeições, como te sentirias?. Credo!ficaria enjoado num instante. Acho que já nem poderia ver mais Leitão à minha frente, ironizei eu. Ora ai está a verdadeira lição que a vida nos fornece, complementou ele, porque em todas as relações que vais estabelecer na vida, sejam elas de que tipo for, o processo vai ser exactamente igual.»

Esta foi a maior lição que tive o privilégio de receber até hoje e tem-me ajudado imenso a compreender tudo aquilo que se tem passado à minha volta. Embora de um modo diferente, ensinou-me a reconhecer o tédio e o modo como ele consegue instalar-se facilmente na nossa vida através da rotina. Desde ai tenho aprendido sempre novas formas de combatê-lo, de anulá-lo, afastá-lo, ou, pelo menos, de não me deixar agarrar por ele sem dar devida luta. E isso tem-me trazido bons benefícios. Foi também através deste exemplo que compreendi o significado daquele ditado popular que diz: « A comida da vizinha sabe sempre melhor que a minha». Sabe melhor apenas por ser diferente. E o que é diferente anula a rotina. Anulando a rotina, anula-se também o tédio. O enfado, o fastio, a monotonia. O aborrecimento.


Disse que sim, porque sentia-me aborrecida...

Se me lembrei de escrever este post hoje, foi sobretudo a pensar na pequena discussão que estava a promover com alguns anónimos (nunca sei se são muitos ou apenas um) no site do Shiuuuu. Nessa pequena discussão, que pode ser acompanhada aqui, um anónimo questionou-me se era possível alguém ficar sexualmente saciado vendo apenas um filme pornográfico. Respondi-lhe que sim, que se a necessidade do individuo fosse apenas espiritual/emocional, como é o caso de um "Voyeur", ela poderia perfeitamente ser preenchida através dessa forma. Mas quando questionaram no site qual a necessidade que leva alguém a ver filmes pornográficos quando pode desfrutar da mulher que tem ao seu lado, lembrei-me imediatamente do factor tédio. É verdade, à semelhança do que acontece em todos os outros tipos de relações, nas relações sexuais aplica-se também os efeitos do famoso conceito do "Leitão à Bairrada". E de nada serve ter a mulher (ou homem) mais linda do mundo, mais "sexy" e mais gostosa, a dormir ao nosso lado. De tanto comer o mesmo prato (perdoem-me a brejeirice) acaba sempre por instalar-se o fastio mais dia menos dia. Fastio esse que é preciso contrariar. Combater com unhas e dentes. Com diversidade, partilha a dois, mente aberta e montanhas de criatividade. Nas relações sexuais torna-se impetuosamente necessário vencer alguns tabus e derrubar as barreiras culturais que nos impedem de ver a sexualidade num sentido mais amplo. No sentido que pode tornar o ser humano mais feliz. Porque o sexo do século XXI já há muito tempo que deixou de ser o sexo de "Adão e Eva" que, na boca de alguns, apenas servia para fazer filhos e qualquer sintoma de prazer que houvesse era considerado um tremendo pecado. E é um pecado sim, é um pecado a nossa vida ser tão curta e não termos tempo de fazer mais. Para mim, logo que ele não prejudique ninguém, no sexo não há lugar para imoralidades. Sejam elas bíblicas, culturais ou sociais. Não há certo nem errado. Nem sequer o bonito ou feio. São apenas necessidades fisiológicas alimentadas por uma série de gostos e fantasias humanas. E tomara eu conseguir realizar muitas das minhas.

15 comentários:

  1. Li há poucos dias um estudo sobre o famoso paradigma da longevidade dos casamentos. Para surpresa de muito boa gente, o referido estudo chegava à conclusão que os casamentos onde as relações sexuais são pouco frequentes têm maior taxa de sucesso.

    Só para que conste, sou casada há 30 anos. Se estão à espera que eu confirmo da fiabilidade de tal estudo...bom...podem esperar sentados.

    Ai o tédio.... :)

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    1. Não fico nada espantado com as conclusões desse estudo. Se as relações sexuais não estão a ser produzidas em casa, então é porque estão a ser produzidas fora dela, logo, é natural que esses casamentos possam durar mais tempo já que o tédio está a ser anulado.
      Esse estudo só vem dar-me razão... :)

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  2. Não sou ingénua mas também não sou tão pessimista como tu. O sexo é importante numa relação. Eu diria, fundamental. Mas uma relação como é o casamento é mais do que sexo. Dizer-se que pouco sexo num casamento significa inevitavelmente que andam por fora não me parece ser uma conclusão muito segura. Mas é a minha opinião. Vale o que vale.

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    1. Nina, bem sabes que não conheço a realidade dos outros casais para poder pronunciar-me sobre a situação deles. Apenas baseio a minha opinião segundo uma perspectiva generalizada pertencente aos homens. Um casamento pode ser mais do que sexo, mas considero que para um homem, se não houver sexo, um casamento dificilmente atinge um patamar superior. Gostaria de ter outra opinião, mas neste momento teria que mentir. :)

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  3. de certa forma tal como a Ni (acho que) diz parece-me um bocado redutor falar de tédio nos casamentos por causa do sexo. acho que é um bocado ao contrário, quando o nosso conjugue deixa de nos interessar, ter sexo parece um bocado imoral, torna-se quase em prostituição, e nesse sentido deixa de acontecer. por outro lado, se for mesmo esse (só) o problema, a verdade é que não há formas infinitas de cozinhar o leitão, e por muitos condimentos que mistures nunca vai deixar de saber a... leitão. e mesmo que fosse possível andar indefinidamente a enganar o paladar comendo leitão pensando que é marisco (ou outra coisa qualquer) qual é o mortal que de vez em quando não ficaria com os pelos eriçados ao sentir o cheiro de um bom peixinho assado?

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    1. Sim Solo, mas antes de nos dar por derrotados não temos nós a obrigação de dar luta e esgotar todas as possibilidades que estejam ao nosso alcance? Acho que, no mínimo, devemos isso à pessoa que amamos...se a amarmos verdadeiramente, obviamente.
      Acho que na analogia que fizestes o peixe assado devia servir de estímulo, e não de solução.

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    2. Mas a minha posição é mesmo essa, não é o tédio sexual or whatever que leva ao fim da relação, é o fim do amor que leva ao tédio. Quando amas alguém à séria nem pensas em tédio e o sexo é só uma parte de tudo. O problema é que acaba. Pelo menos para a maior parte dos mortais.

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    3. Mi madre, já vai em leitão assado :)

      Agora, falando sério, concordo com o Solo. Quando há amor (recíproco, entenda-se), o sexo nunca pode ser tedioso. Porque é essa pessoa que desejámos. E entre ambos encontram a solução para que cada ato seja único. Mas é a minha opinião. Vale o que vale. Mas estou a gostar dos argumentos de ambos. :)

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    4. Gostaria de poder dizer que concordo mas infelizmente não consigo. Acho que mesmo aqui nesta pequena discussão estamos o cometer o erro recorrente de confundir paixão com amor. A paixão pode acabar de facto, aliás, acaba sempre. Mas o amor, esse, nunca acaba. O problema é que o sexo está mais ligado à paixão do que ao amor. É a minha opinião...e também vale o que vale. :)

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  4. Então para ti, se bem entendi, só há sexo se houver paixão. Se houver amor só com um bocadinho de sorte é que se chega lá.

    Espera...ainda estou a processar, ahahahah

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    1. Não Nina, para mim a qualidade do sexo está intrinsecamente ligada à Paixão, logo, à medida que esta desvanece...o sexo também sofrerá um efeito igual. O Amor preenche-nos emocionalmente mas para mim o sexo é sobretudo uma necessidade física. Uma reacção hormonal estimulada pelos nossos sentidos. E o que é que alimenta os nossos sentidos? A paixão.

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    2. Ah é uma questão de qualidade. Queres dizer, então, que quando o Amor existe (sem paixão, entenda-se), a qualidade do sexo é inferior? Continuo a processar... :)

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    3. Sim Nina, já te aproximas mais da minha opinião. Sabes que sempre defendi que nas relações amorosas o Amor nunca nasce sem ser através da Paixão. É ela que estimula os nossos sentidos seja graças ao efeito "novidade" seja pela ausência do efeito corrosivo e desgastante chamado "tédio". Para mim existe a transição de um estado para o outro, logo, quando o Amor entra em cena é óbvio que a Paixão teve que sofrer uma quebra de intensidade até porque teve que haver circunstâncias especificas para que o dito amor pudesse nascer. Depois de surgir o Amor, claro, o plano emocional atinge outro patamar e o sexo vai perdendo fulgor na relação devido à rotina e acção do tédio. Foi como disse o Solo, por mais temperos que a gente coloque na relação sexual as possibilidades não são infinitas ( e muito menos as nossas ideias) e chega um dia em que seremos forçosamente apanhados nas malhas do tédio sexual. E é nesse ponto que o homem enfrenta o seu maior dilema. O que tem mais peso na procura da sua felicidade? a força do Amor que sente ou a sua fome interminável por paixão?
      É uma pergunta complicada e a resposta mais ainda.

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  5. Pensadar, perdoa-me o abuso, mas dou sequência a esta interessante discussão no meu blog, era muita coisa para dizer.

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    1. Mas qual abuso amigo Solo? Sinto interesse por tudo aquilo que possa enriquecer-me enquanto indivíduo. E este tipo de debate serve precisamente para isso. Também irei acompanhar a discussão no teu blog e comentar se sentir necessidade e me deres liberdade para isso. :)

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A frase mais estúpida que poderá ser dita aqui é: "Para Pensador pensas pouco..."
A mais inteligente é: "És tão lindo Pensador..."