28 maio, 2017

O homem renascido...

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Não, já não sou o mesmo homem...o mesmo Pensador. Há uns anos atrás um acontecimento inesperado mudou toda a minha forma de viver e fez-me ver quem eu (não)era de verdade. Foi em Outubro de 2013 que partilhei aqui para os meus amigos e leitores assíduos do Blog, aquele que foi seguramente um dos episódios mais marcantes que vivi até hoje na minha vida. Num texto de raro valor literário (tão raro que quase nem se vê), narrei-vos com muito amor, e algum sentido de humor à mistura, a angustia, a tristeza, o sofrimento e a crueldade de ter que viver fustigado por sucessivos e intermináveis ataques de pânico. Nessa altura relatei-vos os efeitos visíveis e as consequências dessa doença, mas nunca vos revelei qual tinha sido a origem desse problema nem aquilo que fiz para conseguir despistá-lo. Mas lá diz o velho ditado que mais vale tarde do que nunca e, assim, aqui estou eu para poder corrigir esse esquecimento. Saibam que para mim essa foi uma época muito dolorosa, de tal modo que ainda hoje entristece-me relembrá-la. Depois de ter sido obrigado a desistir do meu emprego e não haver em casa outro ganha-pão que não fosse o ordenado mínimo da minha mulher, eis que o meu tormentoso problema continuava resistente e sem qualquer sinal de fim à vista. Em termos de auto-estima, tinha batido autenticamente no fundo. Sentia-me uma peça a mais, um homem medíocre, dispensável, um desperdício, um alvo a abater em nome do bem estar da família. Os ataques de pânico, esses, continuavam e pareciam até aumentar de intensidade. Parecia-me que tinha chegado ao fim da linha. Que já não havia nada a fazer. Continuei a sentir crises, "flash's" na minha cabeça, palpitações do coração, batimentos cardíacos acelerados, tonturas, náuseas, vertigens, dores no peito, perda momentânea da visão (e audição), pernas trémulas e sem força, sensação de desmaio, fraqueza...e uma cómica passagem pelas urgências do Hospital em plena noite de passagem de ano. Mas após ter feito todos os exames que possam imaginar e ter corrido para toda a espécie de médicos que havia, eis que tenho por fim a sorte de ficar sem dinheiro para mais. Digo a sorte porque isso obrigou-me a reavaliar tudo aquilo que tinha feito até aquele momento e descobri que havia algo que, inexplicavelmente, ainda me faltava fazer. Faltava ir visitar o meu médico de família...
É verdade, estava tão aflito e tão desejoso que o problema se resolvesse, que me tinha esquecido do procedimento mais elementar. Talvez tenha sido fruto de alguma desconfiança nas capacidades dos profissionais de saúde que trabalham para o estado (os melhores preferem sempre o sector privado por ser melhor pago), mas tinha dado tanta importância ao meu problema e estava tão convencido de que se tratava de algo grave que não pensei duas vezes e corri logo para as mãos dos especialistas. Hoje apercebo-me que foi um erro estupidamente desnecessário. Se a minha primeira ideia tivesse sido recorrer ao meu médico de família, teria poupado uma fortuna. Mas também a culpa não tinha sido inteiramente minha, ela também foi fruto das circunstâncias. Devido a algumas reformas antecipadas e certas mudanças no sector da saúde, a verdade que eu nem sequer sabia quem era o meu novo médico de família. Mas fosse como fosse, era certo que estava na altura de o conhecer. Foi o que eu fiz. Depois de marcar uma consulta de rotina e esperar pacientemente por ela, eis que finalmente tive a oportunidade de falar com ela. Sim, era uma Doutora e tive a sorte de ela também ser especialista em Neurologia. Apresentei-me, falei-lhe um pouco sobre a minha vida actual e relatei-lhe toda a história médica que me tinha trazido até junto dela. Ela ouviu-me pacientemente, sem nunca interromper-me, e tomou apenas a palavra quando já tinha colocado os pratos todos limpos na mesa. Começou por perguntar-me se tinha sofrido algum tipo de episódio traumático durante a minha infância e/ou adolescência ou se tinha havido durante o meu percurso de vida alguma fase em que tenha sentido uma descarga muito anormal de ansiedade provocado por determinado problema que desejava ver resolvido. Confesso que a minha impressão inicial foi de um certo desanimo porque aquilo que menos precisava naquela hora era de alguém armado em psicanalista comigo. Calhou-me a neta do Freud pensei eu. Mas depois reflecti melhor e uma lembrança surgiu inesperadamente no meu horizonte. Algo que inicialmente pareceu-me uma parvoíce mas que afinal veio a revelar-se uma parte importante daquilo que foi a causa de tudo. Contei à minha médica que alguns anos antes (2 ou 3 sensivelmente) tinha deixado de fumar de um dia para o outro. Ela perguntou-me se eu fumava muito ao que eu respondi que sim, cerca de 2,5 a 3 maços por dia da marca SG GIGANTE. A doutora repreendeu-me imediatamente. Que foi você fazer, disse-me ela, deixar um vicio dessa ordem e dessa forma é de uma brutalidade imensurável para o seu corpo. Parece que tinha de fazer o desmame gradualmente e nunca fazer a asneira que tinha decidido fazer. O que fiz ao meu corpo foi o equivalente a um estado de alerta "DEFCON1" para os Estados Unidos, isto é, coloquei-o num estado de alerta constante pronto a ser atacado a qualquer momento por uma ameaça terrível. É como se estivéssemos a defender a nossa casa, com medo de sermos atacados e nunca conseguíssemos dormir. De nada me serviu tentar justificar-me  perante ela, argumentando que era um homem determinado, que corta sempre o mal pela raiz em vez de andar por ai aos solavancos, etc..etc.. Ela tinha toda a razão, a minha coragem conduziu-me a uma situação manifestamente prejudicial. De facto, quando tinha deixado de fumar, lembro-me de ter passado um annus horribilis de muita ansiedade, nervosismo e stress, com o objectivo muito determinado de conseguir vencer esse vício. O que nunca pensei na altura, é que o meu corpo pudesse manifestar toda essa descarga excessiva de ansiedade cerca de 2 a 3 anos depois. O corpo humano é uma coisa espantosa, quem conseguirá algum dia compreendê-lo na totalidade?. Por vezes até parece que tem uma vida própria, paralela à nossa. Como se eu tivesse uma alma e o meu corpo tivesse outra.
Mas de que me adiantava compreender a causa se não houvesse uma cura para tudo isso?. A médica contou-me então que a única cura existente para esse problema era a cura do nosso espírito e recomendou-me tomar um poderoso chá de vida. Que era tudo psicológico e, como tal, só podia corrigir essa falha fortalecendo a minha alma, a minha vontade de viver, a confiança no meu corpo e fazer subir a minha baixa auto-estima. Obviamente que regateei imediatamente. Era muito mais fácil falar do que fazer. Será que a médica julgava mesmo que nunca tinha tentado fazer isso antes? E os ataques, como conseguiria para-los quando eles surgissem? Será que só tinha de ficar quietinho no meu canto à espera que eles decidissem ir embora? Ao que ela me respondeu.....EXACTAMENTE.
Confesso que estava a espera de tudo menos daquele "exactamente". Mas, contudo, não podia negar que aquela pessoa era a única que estava a fornecer-me respostas imediatas e coerentes desde que o meu problema tinha surgido e, só por isso, tinha que lhe dar todo o meu crédito. O que ela disse em seguida foi o "clic" que eu precisava para iniciar a minha recuperação quase imediata. Sucintamente, descreveu-me todos os sintomas que tinha relatado mais alguns que me tinha esquecido de relatar e colocou-me uma questão muito importante. Perguntou-me se ao fim de cada ataque eu tinha morrido alguma vez. Mas é claro que não, eu estava ali ao pé dela ou será que não me via?!. Então, perguntou-me ela, se nunca morreu do que é que você tem medo afinal? Da mesma forma como vem, os seus ataques também não acabam sempre por ir embora?. Mas que raio de pergunta...tinha medo porque...porque...porque...porque...porque...PORRA!, por mais que pensasse, já não tinha qualquer resposta inteligente para isso.
E foi então nesse momento que me consciencializei definitivamente. Se era verdade que sentia a minha cabeça a rebentar, mais verdade ainda é que ela nunca chegou a arrebentar (Ora deixem-me ver...sim, está confirmado, ela continua por cá! um pouco acima dos meus ombros..). Quando sentia que estava a ficar sem ar e não conseguia respirar, passados alguns segundos o ar voltava sempre. Se perdia a visão, ela voltava segundos depois. Se sentia tonturas e vertigens, passado alguns minutos tudo isso estabilizava. Se sentia as pernas a ceder, ao fim de alguns minutos voltava a conseguir caminhar como se nada tivesse acontecido. Se sentia que estava a morrer...a verdade é que nunca tinha morrido. Por isso, sim, do que é que eu tinha medo afinal?. A médica sorriu e uma vez que já tinha ganho consciência do problema, recomendou-me apenas que ficasse quieto de cada vez que surgisse qualquer ataque de pânico e tentasse me acalmar até que o mesmo desaparecesse. Vai ver que gradualmente os seus ataques irão ser cada vez mais pequenos e menos intensos, até deixarem definitivamente de aparecer, disse-me ela. E foi o que aconteceu. Bendita seja a minha médica. Dava-lhe muitos beijos se não tivesse o receio de ela gostar e depois quisesse mais qualquer coisa. Nos dias que se seguiram cumpri integralmente as recomendações da minha médica e os efeitos foram drasticamente animadores. Quando surgia um ataque de pânico limitava-me apenas a ficar quieto e a permanecer o mais tranquilo possível até que o efeito maligno passasse porque no fim de contas...agora já sabia o que isto era e sabia que não podia fazer-me mal nenhum. Assim, os sintomas mais fortes duraram apenas mais alguns dias e depois deixaram literalmente de acontecer. Durante uns tempos senti apenas alguns efeitos mais leves e passageiros e depois deixei de sentir qualquer ataque. Tinha conseguido vencer mais uma grande batalha...

« O que não nos derruba, torna-nos mais fortes...» (Friedrich Nietzsche)


E em quê que mudei afinal? hahaha...desculpem mas isso será tema para um próximo post...

4 comentários:

  1. E eu gostava de te ter ajudado mais. Mas és perito a esconder os problemas.

    Beijo

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    1. Tem graça que acabastes de tocar um dos pontos do próximo post que tenciono escrever sobre esta matéria. Nessa parte não mudei nada Nina, continuo exactamente igual. Reconheço que sou perito a esconde-los mas também tenho boas razões para isso. Talvez um dia me ouças falar sobre isso...

      Bjs

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  2. Mas que grande vício... um claro abuso do corpo e da mente, diria eu!! Tem de ser uma decisão muito pessoal, essa de abandonar o tabaco... não vale a pena tentar convencer ninguém. Massacrei o mais-que-tudo durante anos por fumar e ele só deixou de fumar quando quis, quando soube que ia ser pai. Já lá vão mais de 7 meses. :)

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    1. S*, dizem que é mais fácil deixar o vício da droga do que deixar o vício do tabaco e acho que isso faz todo o sentido. Ganha-se mais motivação e coragem para deixar a droga porque sabemos que se não o fizermos estamos claramente condenados a viver uma vida curta e em extrema agonia, agora, o tabaco...parece tão inofensivo, não parece? Nunca ninguém ganha pressa em deixar esse vício porque, mesmo para o maior fumador do mundo, o tabaco nunca é encarado como sendo um vício prejudicial. Não é fácil tomar essa decisão, é preciso muita força de querer.

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A frase mais estúpida que poderá ser dita aqui é: "Para Pensador pensas pouco..."
A mais inteligente é: "És tão lindo Pensador..."