22 maio, 2011

Some things never change



Foi há poucos dias atrás que o nosso Presidente da Republica, Aníbal Cavaco Silva, pronunciando-se na altura sobre o acordo alcançado entre o Governo e a Troika, quis alertar os Portugueses para a necessidade de "construir uma economia saudável" e "alterar o rumo das políticas, atitudes e comportamentos". Afirmou ainda que não podíamos continuar a viver acima das nossas possibilidades e a gastar mais do que aquilo que conseguíamos produzir, que tínhamos de trabalhar melhor e poupar mais.
Parece incrível como uma simples frase consegue revelar tanto sobre a real situação de um país e de quem manda realmente nele.Não me refiro à expressão "Trabalhar melhor", porque no mundo do trabalho a palavra "Melhor" teria que ser sinónima de "Qualidade" e "Especialização", mas é sabido que por terras lusas, qualidade e especialização são termos anacrónicos, valores quase sempre esquecidos, atirados em direcção ao tecto ou então enfiados debaixo dos tapetes. O que os patrões pedem da malta, ou melhor, exigem!.. é flexibilidade e polivalência, que é como quem diz, a banalização do mérito, do talento, da arte, da classe difundida pelo trabalhador. É o incentivo ao desinteresse no crescimento pela via profissional. A vulgarização do trabalho, o descrédito, o rebaixamento, a perda de valor, mas também o mecanismo essencial, concebido por um grupo de pseudo-elitistas, para que os "Mal-nascidos" permaneçam sempre mal-nascidos e nunca possam roubar nem espaço nem brilho aos "Bem-nascidos".
É por isso o tipo de trabalho mais presente nas empresas portuguesas, feito à base da força e da velocidade, nem que para isso tenha-se que foder metade da mercadoria ou deixar tudo sujo à volta. Não interessa que seja um trabalho saloio e porco, se for feito com velocidade, força e muita fé em Deus (claro!)...és bom pá!...tens o nosso reconhecimento, um grande futuro à tua frente, mas como fazes também muita merda, acabas por causar algum prejuízo e vais ter que ganhar o ordenado mínimo toda a vida....
Não duvidem minha gente, já sou velho nisto e conheço bem a mentalidade dos patrões portugueses. São despesistas, maus gestores em sua maioria, vivem com a mania das grandezas, mas como a firma nunca dá para alimentar todos os vícios "à rico" que ganham, tornam-se demasiado ressabiados para dar aumentos e sempre preconceituosos ou até mesmo caloteiros na hora de pagar. Se fosse por eles, trabalharíamos de sol à sol e ganharíamos apenas o suficiente para comprarmos comida. Como nos bons velhos tempos...
Mas voltemos ao assunto principal.
Dizia eu que uma simples frase conseguia revelar quase tudo sobre a real situação vivida num país e revelar quem são os verdadeiros "detentores do poder".
Poupar mais diz-vos alguma coisa?
Pois...exactamente, poupar é quase um sinónimo de...Banco, por isso, aquilo que o Cavaco Silva pretendeu nos dizer foi: "Metam o vosso dinheiro no Banco e deixem-no lá ficar!".

Eu até concordo até um certo ponto com a necessidade de poupar,  mas confesso que há uma certa questão que me está a fazer uma grande confusão na minha cabeça. Pensem bem, passa pela cabeça de alguém que poupar, que é como quem diz, "Não gastar dinheiro", possa fazer crescer a economia de um país?
Não é a produção, distribuição e consumo de bens e serviços que faz uma economia funcionar?
Como é que a economia pode funcionar se a malta não gastar dinheiro? Se não procurar, nem consumir bens e serviços? Quem vai alimentar a Restauração e os Comércios?
De que vão viver eles?  Como poderão produzir riqueza? De que modo poderão pagar ordenados aos seus empregados?
E o Estado? Não vai ele também ser penalizado com a cobrança de menos IVA?

Poupar, é isso que temos de fazer?
Vamos meter tudo no Banco e ajudá-los a ultrapassar a humilhação de terem sido considerados como "Lixo" pelas conceituadas empresas de Rating?
É assim que o país vai crescer?
O país, é seguro que não, mas os Bancos...esses vão crescer sem dúvida.
Porque a ideia deles não é má, querem recolher aquilo que é "nosso" para em seguida emprestá-lo aos "amiguinhos" do costume que estão doidos por investir na Polónia ou na Índia.
Já dizia o titulo de uma canção: Some things never change...
Pelo menos, não em Portugal.

Olhem, por alguma boa razão nunca quis acreditar em politícos, e tratando-se de Presidentes, menos ainda.

2 comentários:

  1. "A vulgarização do trabalho, o descrédito, o rebaixamento, a perda de valor"...
    e eu a pensar que era só comigo... afinal é um mal nacional!

    Muita razão no que dizes.

    Os bancos pagam menos ao fisco (ou não pagam) porque dizem que prestam um serviço ao estado social... e o padeiro não presta, querem ver ?
    A classe política tem todo o interesse em proteger os bancos.

    Bjs

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  2. Tinta, é com quase todos. Só ficam de forma meia-dúzia de "protegidos".

    :)

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A frase mais estúpida que poderá ser dita aqui é: "Para Pensador pensas pouco..."
A mais inteligente é: "És tão lindo Pensador..."