21 junho, 2017

Rescaldos de Pedrógão Grande



Há aquelas situações em que as tragédias são noticiadas com pompa e circunstancia, mas muitas vezes percebe-se porque o fazem, já que a sociedade precisa de estar informada e alertada para aquilo que se passa no mundo. Mas que dizer daquelas situações em as televisões por vezes parecem quase estar a gozar com a inteligência dos espectadores ou, pior, quando parecem fazer das tragédias um verdadeiro espectáculo de circo? Foi aquilo que me pareceu presenciar no domingo à noite ao ver o Jornal das 8 da TVI, quando ao minuto 26 do video que podeis encontrar aqui, assisti a algo verdadeiramente bizarro. A cena começou por mostrar um repórter a falar para a câmara de Tv, directamente da povoação de Trespostos, num cenário que, aparentemente, parecia todo ele carregado de fumo e fogo. Pensamos imediatamente para nós:«Eh pá, que aquilo parece estar muito mau para aquele lado». Em seguida o operador de câmara vai descendo a rua, filmando tudo em seu redor, e dá-se a primeira surpresa. Afinal o fogo só ardia junto à parede e em pequenos focos bem distribuídos. Penso então para mim: «Mas que fogo mais bem comportado». Depois o operador pára em frente a um portão velho de madeira de uma casa e reparo por uma frincha lá existente que não está nada a arder por detrás dele. Apenas via-se algumas chamas em cima da parede a queimar silvas verdes (silvas verdes????). Bom, até aqui são apenas algumas situações estranhas mas como por vezes os grandes incêndios projectam fagulhas para toda a zona em seu redor devido à acção do vento, podia ser que que estivesse a ver algo que fosse resultado disso. Mas ai surge outra situação mais estranha. O operador vira-se para o outro lado da rua onde está um homem à espera para ser entrevistado. Muito calmamente, ou melhor, com toda a calma do mundo o "entrevistado" lá foi dizendo o que sabia e sentia naquele momento. Nesse momento já fiquei mais intrigado. «Então, supostamente. está tudo a arder em frente à casa dele e o tipo está ali num relaxe de todo tamanho?». Extremamente bizarro. Depois o operador sobe novamente a rua e verificamos que os pequenos focos de incêndio estavam realmente apenas situados junto à parede e a cena termina com o repórter a falar a partir do mesmo ponto onde começou, sendo que por detrás dele podemos agora também ver o "entrevistado" a admirar o cenário de fogo da sua casa vizinha como quem está a presenciar um filme de cinema. Um pouco preocupado, mas sem sinais de nervosismo nem qualquer ar de aflição ou medo.
Ora bem, é óbvio que falo por mim, mas será possível que alguém possa ficar tão tranquilo se houvesse um grande incêndio nas proximidades da sua casa? E se estava a surgir algumas chamas perto da sua residência, porque não estava o tipo a tentar apagá-las, com baldes de água ou uma mangueira, antes que aquilo crescesse e pudesse também atingir a sua casa? Há coisas que para mim são simplesmente um mistério. Ou melhor, que deixaram de o ser. São os chamados mistérios da comunicação social. Há que potenciar a tristeza, o sofrimento e o drama...

6 comentários:

  1. Já não sei o que pensar acerca dos incêndios. Grande tragédia, pobres pessoas. Ontem, a dada altura resolvi mudar de canal na Tv. Por um lado queria estar a par da situação, por outro aquele cenário negro e os relatos de algumas pessoas... Sem palavras. Tristeza é pouco.

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    1. Clementina, mas de que serve mudar o canal da TV se as notícias te perseguem para todo o lado? Foges de um e vais encontrá-las noutro. Nem que seja em forma de rodapé...

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    2. Perseguem, é verdade... Por isso mesmo, tentar descansar o pensar por breves minutos, por escolha pessoal.
      Aquelas imagens juntamente com a música de junto, é até agressivo.
      Na realidade é uma agressão, bem sei.
      Mas acho que entendes o que quero dizer.

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    3. Entendo perfeitamente e partilho inteiramente a tua opinião.

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  2. A partir do momento em que os canais de informação começaram a explorar a desgraça alheia mudei para os outros canais. E não encontro em rodapés.

    Bj

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    1. Verdadeira desgraça é a nossa comunicação social. Até parece que a desgraça alheia é motivo de contentamento para eles.

      Bjs

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A frase mais estúpida que poderá ser dita aqui é: "Para Pensador pensas pouco..."
A mais inteligente é: "És tão lindo Pensador..."