07 outubro, 2017

Catalunha ou o prelúdio de uma democracia condenada à morte...

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Tenho seguido com bastante interesse as noticias que nos tem chegado da situação dramática que se vive actualmente na Espanha, mais concretamente na Catalunha. É assim, desde pequeninos que somos educados para a cidadania e para viver em democracia. Na escola aprendemos que todos os homens são livres e iguais perante a Lei, que cada cidadão tem uma série de direitos que estão consagrados pela Constituição através de vários princípios indissolúveis de entre os quais figuram alguns fundamentais como o princípio da igualdade e do direito à resistência perante qualquer forma de opressão. A constituição atribui-nos ainda muitos outros direitos tais como o direito à vida, à integridade pessoal, à cidadania, à palavra, à liberdade e à segurança, e à livre expressão do nosso pensamento e informação. Assim, crescemos com a fantasia de que existe um conjunto de regras inquestionáveis e invioláveis que visam garantir que não sejam repetidos alguns erros do passado e que o povo não se veja novamente sujeito às tormentas de ter que viver sob a alçada de regimes políticos opressores fascistas que negam ao ser humano qualquer pretensão que ele tenha de ser feliz. Disse fantasia porque, infelizmente, quando a Democracia é convidada a mostrar a sua força, mas, sobretudo, a sua diferença quando comparada com regimes mais autoritários, é com alguma surpresa que verificamos que, afinal, e tal com esses, ela não passa de uma grande treta. Senão vejamos. Temos na Catalunha um povo que nunca se identificou com o reino Espanhol e para provar isso basta dizer que essa região possui a sua própria língua, história e cultura. Perdeu a independência e autonomia pela primeira vez em 1714 quando Barcelona foi cercada pelos Borbónicos e após ter conseguido recuperá-la em 1931, acabou por voltar a perdê-la anos mais tarde com a ditadura franquista. Após a morte de Franco,e com a restauração da democracia, foi permitido à Catalunha ter o seu próprio parlamento, força policial e sistema de educação, tornando-se assim umas das 17 regiões autónomas que compõe a Espanha. Mas a a região da Catalunha goza de um grave defeito. O pior de todos por assim dizer. Para além de ser a 2ª região mais populosa do país, trata-se também da mais rica de Espanha e representa 20% do seu PIB nacional. O resto já se sabe, quem é rico...nunca gostou muito de partilhar com quem é pobre, ainda para mais se foi coagido a fazê-lo sob a ameaça de armas de fogo. Assim, temos uma Catalunha (7 milhões de habitantes) cuja história fê-la ganhar ódio por MADRID e esse ódio irá estender-se ao longo dos séculos que ainda hão-de vir. Por ser tão rica e tão decisiva na economia Espanhola, não será nenhum absurdo dizer que o seu afastamento provocaria irremediavelmente o colapso do país, colocando assim o governo Espanhol numa situação de extrema fragilidade à semelhança do que se passaria se a região do Porto quisesse ser independente e decidisse separar-se de Portugal por exemplo. Trata-se de uma questão delicada que dificilmente terá uma solução à vista e que já por isso requer muito cuidado e bom senso da parte de quem governa. No entanto considero que o governo de Mariano Rajoy tem estado a meter os pés pelas mãos nesta questão. Há um referendo no ar e que decide ele fazer? Vai proibir as pessoas de votar , violando assim os seus direitos mais fundamentais e ferindo também o seu orgulho. Se até ali podia haver alguns "indecisos" ou algum cepticismo nesta questão , com aquele gesto acabou por matar qualquer simpatia existente à capital e deixou logo tudo decidido. Os Catalães, como seria de esperar, na sua qualidade de gente brava e orgulhosa, jamais iriam permitir que tal afronta do governo passasse em claro e, à semelhança do que faria qualquer povo que visse a sua casa a ser atacada, reagiram e trataram logo de arranjar soluções para que esse referendo pudesse realizar-se. E realizou-se. Mas o que se seguiu depois merece figurar nos anais da historia como a mais triste, perversa  e execrável lição democrática alguma vez revelada pelo homem. Essa nova lição democrática, dessa "nova democracia" que hoje em dia parece estar a nascer perante os nossos olhos, baseia-se na premissa seguinte:«Podes beber desde que bebas da minha fonte, podes comer desde que comas da minha mão, e podes pensar desde que penses igual a mim, porque se beberes da tua fonte, comeres do teu prato, pensares pela tua cabeça ou quiseres decidir o teu futuro, serás maltratado, espancado ou preso como o grande malfeitor que és...». Em suma, de tanto maltratarmos a democracia ela acabou por estender de novo o tapete ao fascismo, tendo a Espanha assumido carregar o estandarte do primeiro exemplo. Assim, sob a capa da "legalidade" e servindo-se do aparelho jurídico burguês espanhol, o estado desencadeou uma verdadeira operação repressiva sobre a região da Catalunha, destacando para o local mais de 10.000 soldados para intimidar a população, invadiu três ministérios da Generalitat (Economia, Negócios Estrangeiros e Presidência) e prendeu 13 dos seus membros. Encerrou locais de voto, confiscou urnas e cédulas eleitorais, e espancou a população presente nos locais de voto provocando assim mais de 900 feridos. E no fim de tudo isto, o Rei de Espanha, Felipe VI, com o gesto mais hipócrita que tive o desprazer de ver até hoje da parte de um pseudo-rei, ainda teve a lata de invocar a deslealdade e falta de respeito do povo catalão pelo espírito democrático para justificar as acções anti-democráticas que o governo decidiu tomar contra eles. Sem mais palavras...

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A frase mais estúpida que poderá ser dita aqui é: "Para Pensador pensas pouco..."
A mais inteligente é: "És tão lindo Pensador..."