25 abril, 2018

E porque hoje se falou tanto em liberdade...


...Como se fosse o Santo Graal da nossa existência e sem terem a menor noção do que ela quererá dizer...que tal a gente escutar a voz de quem goza os créditos de perceber alguma coisa do assunto? Um poema de Miguel Torga, talvez. É que, mesmo sabendo que hoje é o famigerado 25 de Abril e que por vias disso devemos sempre esperar todo os géneros de teatro, a verdade é que já me cansa a alma - mas sobretudo os tímpanos dos ouvidos - de tanto ouvir os nossos governantes e essa costumeira corja de políticos, todos eles falsos como Judas, a falar de liberdade como se ela fosse um valor sagrado indestrutível e indesmentível para eles e um estorvo desnecessário para os outros. Se prezam assim tanto o valor da liberdade, porque estão sempre a maltratá-la, amordaçá-la e a perpetuar no parlamento o coeficiente de Gini que fazem de nós os palhaços da Europa e nos coloca sempre no pódio das desigualdades sociais? Porque continuam a fazer de conta que a liberdade existe se na realidade ela nunca existiu? Não da forma como ela está a ser apresentada perante nós pelo menos. Liberdade é viver, não sobreviver! Liberdade é podermos seguir os nossos sonhos e acreditar na força do nosso mérito e não estudar anos e anos a fio numa universidade para depois irmos parar à caixa de um hipermercado, ou então sermos obrigados a deixar os amigos e a nossa família para trás por termos de emigrar a fim de criar algum valor. De que serve podermos falar o que quisermos se ninguém ouve a nossa voz? De que serve termos a liberdade de poder circular onde quer que seja se não pudermos ir para lado nenhum? De que serve o ensino ser "tendencialmente gratuito" se temos que pagar os manuais, material escolar e as custas todas da educação até completarem os 18 anos e muitas vezes depois disso? De que serve termos um carro se a porra da gasolina está sempre a subir para satisfazer os 63% de impostos que revertem a favor do Estado? De que serve termos um serviço de saúde considerado dos melhores do mundo se continuamos a ver pessoas andarem 30 ou 40 kilometros para conseguir uma consulta médica, outras que chegam a esperar muitas vezes 7 horas para serem atendidos nos serviços de urgências, mais aquelas que acabam por morrer nas intermináveis filas de espera para serem operados? Se tomarmos como referência um pais como a China ou a Correia do Norte, aposto que muita gente diria que somos um povo abençoado e livre, mas se olharmos para o que se passa no resto da Europa, aquela da qual supostamente fazemos parte, já se diria que continuamos a ser um povo escravo, discriminado e maltratado. Um país de nabos à beira-mar plantados que paga tudo aquilo que os outros europeus pagam mas que só recebe uma merda a que muita gente chama de salário, e não há pseudo-socialismos que consigam camuflar essa triste realidade. Dizem que o 25 de Abril trouxe-nos o direito à liberdade, mas eu digo que só nos trouxe a ilusão de sermos livres, e quem discordar...tem toda a liberdade de o fazer porque eu, pelo menos, respeito isso...


Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

2 comentários:

A frase mais estúpida que poderá ser dita aqui é: "Para Pensador pensas pouco..."
A mais inteligente é: "És tão lindo Pensador..."